Na Tunísia, manifestações contra governo começaram nos estádios

Torcedores sempre usaram palcos esportivos para manifestar seu descontentamento, que acabou indo para as ruas

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2011 | 00h00

GENEBRA

Quem estivesse nos estádios da Tunísia nos últimos anos saberia que a revolução estava por vir. Supostamente mobilizados para apoiar seus times, torcedores não perdiam a oportunidade de promover ofensas contra o regime do ex-presidente Ben Ali, deposto no início do ano.

Nos estádios, cantavam gritos contra o ditador. Em uma ocasião, o jogo foi cancelado em plena vigência devido ao comportamento considerado "inadequado" dos torcedores. O motivo: criticavam o regime em cantos.

Em 2005, no jogo válido pela final da Copa da Tunísia, a torcida passou a entoar gritos de guerra contra o então presidente. Um de seus filhos estava no estádio e, ao ser notado, também passou a ser alvo de insultos. Deixou a final antes de o jogo terminar e nem sequer entregou o troféu.

O uso das arquibancadas para atacar um regime ditatorial não é novo. Durante o regime de Joseph Stalin, na ex-União Soviética, jogos do Spartak eram marcados por ofensas ao Kremlin. Para a polícia, havia um problema: como prender um estádio inteiro por ofender o "grande líder"?

Assim como no mundo soviético, os estádios tunisianos se transformaram em uma caixa de ressonância do descontentamento popular. Em novembro, poucas semanas antes da revolta que acabou com o reinado de Ben Ali, a mais forte demonstração de desconforto da população foi registrada. E acabou envolvendo até o vice-presidente da Fifa, Issa Hayatou.

Em campo, era disputada a final da Liga dos Campeões Africanos, entre o tunisiano Esperance e o Mazembe, do Congo. Acusando o juiz de ter sido pago pela Confederação Africana, a torcida local atacou Hayatou, atirando e mostrando notas de dinheiro em sua direção.

Cansados da corrupção, os torcedores da Tunísia decidiram que não poderiam mais aceitar essa realidade. Poucas semanas depois, sairiam às ruas para pedir o mesmo, desta vez contra o governo.

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