Nada é para sempre. Nem o time?

Um homem muda de mulher, de posição política, de religião, mas não muda de time. Esta é uma daquelas verdades que são repetidas através dos anos e que, por ter certo impacto verbal e certa solenidade, passam por verdade absoluta. Está na hora de começar a refletir sobre isso, afinal atravessamos época de mudanças.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h04

Conheço gente que mudou de religião mais de uma vez, gente que mudou de país, senhoras que conheço há anos com uma cara e que, subitamente, aparecem com outra. Sei de um pai de família exemplar, que recentemente chegou para jantar e à mesa anuncia para mulher e filhos que resolveu mudar de sexo, e que a partir da operação, já marcada, gostaria de ser chamado de Claudia.

Só no futebol ninguém muda. Ouço queixas, vejo troca de e-mails desesperados de torcedores inconsoláveis ameaçando céus e terra. Depois de uns dois ou três dias de fúria calam e tudo volta ao normal. Até a próxima derrota e humilhação, quando repetem o ritual. Mas não mudam de time. Por que não?

Entre todos os segmentos de uma sociedade injusta como a brasileira, o futebol é o mais injusto. Ocupa, de longe, o primeiro lugar na distância entre uma pequena classe que se apossa do poder e o resto, que é mantido longe, sem nada saber e sem nenhum meio de interferir no que ocorre no interior do clube. Ao torcedor compete sofrer calado e pagar sem protesto seu ingresso para ver aquilo que os dirigentes lhe oferecem. Não tem a mínima ideia de como esses dirigentes chegam ao cargo, não sabe como são eleitos, se são e por que são eleitos.

O torcedor se acostuma com essas figuras que até outro dia não sabia quem eram. Não tem meios de questionar quem os sustenta no poder, quem é seu grupo de apoio e como agem. Por isso compreendo o desabafo dos e-mails e a ira impotente. De vez em quando é noticiado que tal dirigente está tentando, geralmente com sucesso, mudar os estatutos do clube para ser reeleito. Estatutos, aliás, que ninguém leu. E é tudo.

Mesmo quando alguém dá certo, caso, por exemplo, do presidente do Santos, Luis Álvaro Ribeiro, o temor é sempre o que vai acontecer quando ele sair. Quem virá? Porque eleições num clube de futebol me parecem, a mim que sou um simples torcedor, mais misteriosas que a eleição de um Papa. É claro que um clube é diferente de outro e que há situações mais graves. Há clubes em que realmente só o que resta é mudar. A estrutura é impenetrável, os que lá estão agem como verdadeiros donos, portanto o que resta é cair fora. É difícil? Muito. A fidelidade ao time vem da infância, às vezes vem da família, acompanha o torcedor por toda a vida e é um traço biográfico e de identidade pessoal poderoso. Deve ser mais difícil do que parar de fumar. Mas hoje há até cursos para interromper vícios como cigarro. Por que não para o futebol? Manuais, apostilas, cursos noturnos, livros de autoajuda, talvez até clínicas especializadas, tudo é válido para curar a doença de torcer cegamente.

Esses instrumentos vão aparecer brevemente, tenho certeza: é só alguém sair na frente e começar a ganhar dinheiro. Enquanto isso, poderemos iniciar por ideias simples como, por exemplo, não mais exercer influência nos filhos, deixando-os escolher seu próprio calvário livremente. Outras medidas possíveis seriam jamais pôr o pé nos estádios e mesmo desligar a TV quando seu time joga.

Não se engane: vai ser impossível mudar para o inimigo, o rival odiado por anos. Isso não dá, claro. Mas que tal um time pequeno, ou melhor ainda, de outro Estado? (Um amigo paulista me diz que cansou de ser tratado como imbecil e tem simpatizado cada vez mais com o Botafogo). Enfim, está mais do que na hora de, usando essa palavra odiosa tão em voga, "repensar'' a noção de que não se pode mudar de time. Pergunte a si mesmo: por que não? É um bom começo.

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