Nada é por acaso

O Brasil conquistou 17 medalhas nos Jogos Olímpicos. O resultado prático disso é que a cada 11,5 milhões de habitantes o País consegue levar um atleta ao pódio. Com um olhar diferenciado para a educação e o esporte, a Austrália deixou Londres com 35, uma a cada 645 mil pessoas. E desta vez sem ser brilhante.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2012 | 03h03

Esses números funcionam como um indicador de competência. Nos últimos 17 dias, falou-se demais por aqui na formação de uma nação olímpica. Simples como se bastasse apenas um decreto presidencial para mobilizá-la. Sem educação, saúde e esporte na escola, não funciona.

A única maneira de aumentar a quantidade de medalhas é investir, mas desde que o filtro de talentos seja melhorado. Não tem mistério nem fórmula mágica.

Entretanto, o que deveria ser visto como uma fonte de boas notícias acabou se transformando em mais uma fissura no duto do dinheiro público. Hoje existe dinheiro para o esporte: do governo, das estatais e das loterias. Mas ele nem sempre chega ao atleta, perde força no caminho e desaparece.

Não seria óbvio e obrigatório exigir auditorias independentes das confederações, para que cada real tivesse sua destinação comprovada? Essas entidades até divulgam balanços, de vergonhosa transparência.

Nem a elite do futebol escapa dos problemas estruturais do esporte brasileiro, que mesmo com a medalha de ouro permaneceriam intactos. A derrota talvez faça a CBF pensar um pouco. Melhor começar agora que esperar pelo resultado do Mundial. Um pouquinho de gestão não faz mal a ninguém.

O México não merecia perder o ouro na decisão do futebol, e a explicação é bem simples: trabalhou mais e melhor que o Brasil para conquistá-lo. O pódio é determinante para a formação do time de 2014 e a cor do metal no pescoço dos jogadores dirá muito sobre o futuro de Mano Menezes.

A prata pode servir para os outros, nunca para o futebol, cada vez mais sem sentido nos Jogos Olímpicos. A seleção teve demasiados problemas defensivos contra os mexicanos, sofreu o primeiro gol aos 28 segundos e teve muita dificuldade para ultrapassar o bloqueio de uma equipe mais bem treinada.

É necessário reconhecer Londres como uma etapa da preparação. O torneio olímpico mostrou que parte do grupo, que será bem diferente daqui a dois anos, ainda necessita de um banho de futebol internacional para aprender a enfrentar as imposições táticas e psicológicas de um tipo de jogo ainda raro por aqui.

Nada acontece por acaso. Nove jogadores mexicanos campeões pan-americanos em Guadalajara no ano passado receberam o ouro em Londres.

O futebol é apenas parte dos Jogos Olímpicos e já faz tempo que está na marca do pênalti. Triste é a maneira como os demais atletas brasileiros são tratados. São 'amarelões', fracassados, incapazes... É muito fácil analisar do sofá de casa e voltar a falar deles daqui a quatro anos.

Nada acontece por caso. Nadinha!

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