Beto Monteiro/Divulgação
Beto Monteiro/Divulgação

'Nada mudou. O Brasil tem um problema sério: esporte de base'

Campeão olímpico em 84, convidado para voltar ao País, critica inércia das autoridades em investir no incentivo às atividades nas escolas depois que o Rio virou sede dos Jogos de 2016

AMANDA ROMANELLI, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2011 | 00h00

CHRISTCHURCH, Nova Zelândia - Campeão olímpico dos 800 metros em Los Angeles/1984 e um dos maiores nomes do atletismo, Joaquim Cruz pode voltar ao Brasil para trabalhar na preparação para os Jogos de 2016, no Rio. Recebeu convite do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), mas ainda não definiu o futuro - os Estados Unidos, país em que trabalha como técnico do atletismo paraolímpico, não querem perdê-lo. Independentemente de sua decisão, o ex-corredor manifesta preocupação com a estrutura brasileira e critica duramente a falta de investimentos no atletismo e no esporte em geral.

"A situação do Brasil não mudou. Não houve nenhuma reforma para colocar o esporte nas escolas. Sem essa reforma não vai, é como garimpar em mina que não tem diamante. Eu esperava alguma mudança já no ano passado (após a escolha do Rio como sede olímpica, ocorrida em 2009), mas não houve e vamos ficar nessa briga até não sei quando", declarou, em entrevista exclusiva ao Estado.

O ex-atleta, há quase três décadas fora do País, cita como exemplo a dificuldade para se encontrar novos nomes no atletismo. Lembra que Maurren Maggi, atual campeã olímpica do salto em distância, e Jadel Gregório, do salto triplo, estão na reta final da carreira e não têm tantos anos mais pela frente... Um bom parâmetro será o Mundial de Daegu, Coreia do Sul, entre 27 de agosto e 4 de setembro. A expectativa, no entanto, não é de grande desempenho. Atualmente, a maior aposta é depositada em Fabiana Murer, de 29 anos, saltadora com vara campeã mundial indoor em 2010.

Prestigiado nos Estados Unidos, Joaquim foi promovido de consultor do Comitê Olímpico Norte-Americano a técnico em período integral depois de ter recebido a oferta do COB. Os americanos não querem perder o dedicado profissional que dá expediente no Centro Olímpico de Chula Vista, perto de San Diego (Califórnia). Nem o homem que participa de triagens no Centro Médico da Marinha, observando ex-combatentes de guerra com o olho clínico de quem sabe descobrir atletas. "Na verdade, os EUA não entendem por que eu ainda estou aqui com eles (e não foi chamado antes para trabalhar no Brasil)", disse o brasiliense de 47 anos, que está em Christchurch, na Nova Zelândia, como técnico da equipe paraolímpica dos Estados Unidos no Mundial da categoria.

Você tem envolvimento direto com o atletismo do Brasil, participa de fóruns e discussões. Qual sua análise do esporte no Brasil?

A gente sempre espera o melhor, né? Mas a situação do Brasil não mudou. Não houve nenhuma reforma para colocar o esporte nas escolas. Sem essa reforma não vai, é como garimpar em mina que não tem diamante. Eu esperava alguma mudança já no ano passado (após a escolha do Rio como sede olímpica), não houve, e vamos ficar nessa briga até não sei quando. Só não espero ver a Olimpíada chegar e a gente ficar com esse problema seriíssimo que é o esporte de base.

De quem seria a obrigação de realizar esse trabalho. Do governo ou da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt)?

Eu acho que não é obrigação da CBAt, é obrigação do governo cuidar do jovem brasileiro. O esporte tem de estar na escola, os dois têm de andar juntos, e o governo tem de chamar todos os administradores, as mentes do esporte, e conversar como vamos fazer isso. Eu não sei qual é a melhor forma, porque começar do zero vai ficar muito caro. Tem de aproveitar o que se tem, dar incentivo para os professores, criar ligas, campeonatos o ano todo para os garotos que se interessem em praticar esporte.

Como você analisa as chances do atletismo brasileiro neste ano, em que teremos Mundial e Jogos Pan-Americanos (em outubro, em Guadalajara)?

No momento estamos com esse problema muito sério (da revelação de talentos) e para o Mundial deste ano foi feito muito pouco. Para a Olimpíada do ano que vem (em Londres), vamos tirar de onde? Temos a Fabiana (Murer) e quem mais? A Maurren (Maggi) está voltando, o Jadel (Gregório) está no Brasil tentando acertar a vida dele. No meio-fundo temos o Kleberson Davide e o Fabiano Peçanha e Londres vai ser a última Olimpíada deles. Então não temos muitos nomes diferentes. A preocupação maior é que esses atletas que eu citei já estão no fim da carreira. Não temos renovação.

É verdade que o COB o convidou para voltar ao Brasil e participar da organização do Rio-2016?

Olha, o que eu posso dizer é que houve um convite e estamos trabalhando em cima disso. O Brasil ainda está cogitando, mas eu acho que, por causa desse convite, o Comitê Olímpico Americano já foi e mudou meu status. Antes eu era só um consultor, mas em janeiro eu passei a ser funcionário em tempo integral. Infelizmente as coisas no Brasil são lentas. Conseguimos ter visão, mas não conseguimos trabalhar em cima disso. Quando o Brasil conquistou o direito de realizar a Olimpíada, os Estados Unidos já enxergaram lá na frente. Eles estão me segurando para 2016.

Então está mais difícil o seu retorno?

Não está difícil e, na verdade, os Estados Unidos não entendem por que eu ainda estou aqui com eles (estranham o fato de não ter sido chamado antes para trabalhar no Brasil). Fomos para os EUA só meu treinador e eu. Fui para me aventurar. Mas agora, para voltar, não depende apenas de mim, tem a minha família. É um pouquinho mais trabalhoso, mas acho que o Brasil nos dá condições. Eu já conversei com a minha mulher, meus filhos, e eles voltariam amanhã se dessem a oportunidade. É uma questão de bater o martelo (com o COB).

Qual é o seu trabalho com os paraolímpicos americanos?

A minha função geral é estar à disposição de todos os atletas e treinadores, dentro e fora do meu Estado (a Califórnia). Quando eu venho aqui (em competição), minha função é cuidar do pessoal, dar treinamento e fazer um pouco de coordenação também, por causa da minha experiência. Já são seis anos com os paraolímpicos, este é o meu segundo Mundial. Estive na Holanda (Assen, em 2006) e também na Suécia, num Mundial Indoor informal, em 2005.

Qual o perfil da delegação americana?

É muita gente nova, quase metade da delegação é de atletas jovens, de 15 anos, por exemplo. Esta é a primeira competição internacional deles, serve mais como preparação para o ano que vem (Paraolimpíada de Londres).

Acha que o movimento paraolímpico tem evoluído?

Em termos de participação houve uma evolução muito grande. Você percebe quem é velho, quem é novo. Do último Mundial para este há uma geração enorme de atletas, dirigentes e treinadores novos. Mas uma coisa legal do paraolímpico é que não existe separação dentro da pista de competição. Nós, por exemplo, estamos dividindo nossa tenda (que serve como base dos atletas ao lado da pista de treinos) com o Canadá. Eu conheço o coordenador da Grã-Bretanha, tenho contato com os portugueses, com angolanos... A Alemanha tem muitos atletas que eu conheço também. Pelo fato de eu ter competido no "convencional", muita gente me conhece, então vem bater papo. Eu nunca fiz tanta amizade.

E no nível de organização?

É uma preocupação que existe. Nós seguimos as normas do IPC (Comitê Paraolímpico Internacional) e da IAAF (Federação Internacional de Atletismo), mas às vezes não seguimos nem um nem outro. Não existe essa sinergia entre treinadores, dirigentes. Não está havendo muita comunicação. E isso tem de existir para melhorar a qualidade do esporte de uma forma geral. Temos de definir que normas vamos usar e adaptar para as necessidades do paraolímpico. Não se pode ficar pulando de galho em galho, escolhendo uma norma quando ela nos favorece. Temos de acomodar muitos países e muitas classes diferentes. Não se pode, por exemplo, tirar uma classe para colocar outra, de repente. Muitas vezes estamos trabalhando para desenvolver uma classe, que estava fraca, ela é retirada e se perde todo o trabalho. Por exemplo, o Brasil é forte nos PC (paralisados cerebrais); os EUA, não. Se o IPC corta a classe, porque os Estados Unidos não são fortes, prejudica o Brasil.

QUEM É

JOAQUIM CARVALHO CRUZ

Carreira: O maior feito foi o ouro nos 800 metros da Olimpíada de Los Angeles, em 1984. Nos Jogos de 88, em Seul, conquistou a prata. Em Jogos Pan-Americanos, subiu duas vezes ao topo do pódio nos 1.500 metros: em Indianapolis-87 e Mar del Plata-95. Ainda levou uma prata no Mundial de Helsinque, em 83, nos 800 m. Desde jovem vive nos EUA e atualmente, aos 47 anos, trabalha no Comitê Olímpico Americano.

A repórter viajou a convite do Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB)

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