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Antero Greco
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Não adianta chorar

O Palmeiras deu surra de 4 a 0 no River Plate do Uruguai, na noite de ontem. Que bom, que bonito, apresentação segura e atrevida da turma de Cuca. Primeira parte do milagre alcançada no Allianz Parque. Mas o resultado não valeu um tostão furado para seguir em frente na Libertadores. A desclassificação ainda na fase de grupos veio porque a outra parte do prodígio não se concretizou, pois o Nacional perdeu em casa para o Rosario Central. Fim de linha verde.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2016 | 05h58

Os dois jogos disputados no mesmo horário tiveram ritmo distinto. Em São Paulo, o que se viu foi o Palmeiras a apertar do início ao fim, mesmo com risco de tomar contragolpe. Não lhe restava alternativa a não ser bater firme no adversário. Em Montevidéu, a partida foi monótona, arrastada, sonolenta. O Nacional, classificado e desfalcado, pouco se lixou. O Rosario, para não dar espaço para o azar, não se contentou com o empate.

O Nacional não teve vontade nenhuma. E daí? O papel dele foi cumprido nas rodadas anteriores, com direito a duas vitórias sobre o Palmeiras. Não cabe transferir culpa. Responsável pela desclassificação é o próprio Palestra, que não seguiu o bê-á-bá mais simples da Libertadores: vencer em casa e no mínimo arrancar um ponto fora. Sem choro; agora, é brigar no Paulista.

Gangorra. Frase que o leitor nunca leu: o futebol surpreende. Quase sai “é uma caixinha de surpresas” ou “a little box of surprises”, versão em inglês que em certa ocasião, na Alemanha, ouvi do Rei Pelé. O lugar-comum se justifica, pois não há esporte que se compare ao jogo de bola para contrariar a lógica, derrubar palpites, dar rasteiras em certezas ou em superioridade técnica.

Na quarta-feira, no mesmo dia, dois exemplos novos vieram juntar-se aos milhões já existentes. No lado de cima do Atlântico, o Barcelona incensado mais do que político à espera de fisgar cargo de grosso quilate tropeçou em rivalidade doméstica, perdeu pro Atlético e viu se desfazer o sonho do hexa europeu. O trio MSN foi engolido pelos bagrinhos operários do adversário.

Na parte sul do oceano, o São Paulo desmontou previsão catastrófica na Libertadores, fez a melhor apresentação do ano, bateu o River famoso e, de quase eliminado, agora depende de empate com o The Strongest para ir adiante. (A propósito, desferi canelada ao escrever que derrota tricolor seria fatal.)

Com diferença de poucas horas, um campeão mundial (Barça) saiu de campo destroçado; outro (São Paulo, que numa das vezes fez a festa em cima dos catalães) sacudiu a poeira do pessimismo, lavou a alma e se robustece. Se vai carimbar a vaga, é outra história.

Evidente que talento conta, claro que ter craques aos montes encurta caminho para conquistas. Só se for muito sonso alguém vai preferir cabeças de bagre na equipe para a qual torce. Maior qualidade, tanto mais animadoras as perspectivas de sucesso.

Mas não deixa de ser irônico e estimulante – desde que não atinja o time da gente – ver que o esforço coletivo às vezes supera talentos imensos como os de Iniesta, Messi, Suárez e Neymar, para ficar num quarteto de ases. O Atlético tem valorosos rapazes, não é timeco de esquina, já atazanou a vida do Barça em outros carnavais. Só que na bolsa de apostas aparecia como azarão.

Quer dizer, nem todo poderio econômico se impõe diante do imponderável que o futebol embute. Elenco fabuloso pode cair no buraco por uma falha individual, um lance de gênio. Acontece, e que bom que seja assim. Nem entra em discussão o valor do trabalho de Luis Enrique e sua trupe. Muito menos cabe falar que “jogar bonito é conversa fiada”.

O São Paulo tem de aproveitar a empolgação e embalar. Se superar as limitações físicas impostas pela altitude de La Paz e repetir metade do que mostrou no Morumbi, retorna classificado para as oitavas de final. Finalmente, depois de muitos meses, o ponto de interrogação que vem grudado na turma tricolor perdeu o brilho. Ótimo, e que a vitória de quarta não vire fogo de palha.

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