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Não colou...

Chapéu é um dos lances mais bonitos de se ver - desde que aplicado por um jogador em outro, durante um jogo ou numa simples pelada de rua. Sinal de habilidade, ousadia e controle de bola. Mas vira recurso vil quando se estende para outros campos de atividade. Na política, por exemplo.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2015 | 02h03

Pois foi um chapéu e tanto o que a turma da Bancada da Bola tentou mandar pra cima do governo federal e, por extensão, para o pessoal do Bom Senso FC. Escrevi chapéu?! Foi pouco. Era lençol, sombrero que a cartolagem armava, na miúda, para livrar o peso das dívidas bilionárias com órgãos públicos e sair do episódio com a maior cara de pau.

Um resumo pra você entender. Há uns dois anos, circula no Congresso uma Lei de Responsabilidade Fiscal, que prevê rediscussão dos débitos dos clubes de futebol, com prazos para pagamento, redução de multas e outras atenuantes. Em contrapartida, se cobram transparência nos gastos, seriedade administrativa, cumprimento dos deveres trabalhistas. Há risco até de rebaixamento para os caloteiros. E processo para cartolas inaptos. Bom.

Como tal projeto pode acabar com farras que vêm desde o tempo das Capitanias Hereditárias, os dirigentes recorreram a seus compadres e simpatizantes na parlamento para ver se emplacavam uma alternativa. Algo mais suave, menos peremptório. Enfim, uma leizinha maleável e maneira,

No final do ano, na pressa de limpar as gavetas e gozar de merecidas férias, começou-se a desovar um monte de projetos, Um deles, uma Medida Provisória, tratava de diversos temas ligados a importações - até de agrogeradores para a pecuária. Daí o deputado Jovair Arantes (PTB-GO) detectou brecha para também enfiar a questão do endividamento das agremiações. Sabe como é, pecuária, campo, gramados, é mais ou menos tudo a mesma coisa.

O novo texto dava 240 meses - 20 anos, em português claro - para a quitação das dívidas. Com descontos de 70% nas multas isoladas, de 30% nos juros de mora e de 100% no valor de encargos legais. Em troca de quê por parte dos clubes? De nada. Isso mesmo, nada. Só a promessa de que pagariam tudo na boca do caixa, religiosamente. CBF e a Federação Nacional dos Atletas de Futebol apoiaram.

A turma esfregou as mãos à espera da canetada de Dilma Rousseff e vislumbrou o fim do pesadelo. Algum assessor precavido deve ter falado para a chefe de Estado que tinha gato na tuba, recomendou que abrisse os olhos, pois levaria bola nas costas e ficaria com cara de tacho. Ela vetou o artigo, com um drible de fazer o adversário sentar. Com o comentário adicional de que o texto aprovado não respeitava o que se discutia com representantes do meio futebolístico e deixava de lado "medidas indispensáveis que assegurem a responsabilidade fiscal dos clubes e entidades, a transparência e o aprimoramento de sua gestão, bem como a efetividade dos direitos dos atletas."

Com as honradas exceções de sempre - ainda bem! -, cartola acostumou-se, ao longo da história, a gastar à vontade e a empurrar problemas com a pança. Como os clubes são entidades sem fins lucrativos, e sobretudo como o dinheiro não é deles, um INSS a menos, um FGTS não recolhido, um IR esquecido não passam de detalhes. O importante é a alegria do povo, o significado cultural do futebol, o quanto gera de empregos e a conversa mole de sempre.

Muitos têm empresas, comércio, indústria, são profissionais liberais - enfim, trabalham com algo para se sustentarem. Será que têm comportamento semelhante nas atividades pessoais? Torram verbas a rodo? Sonegam impostos, dão calote em funcionários? Acredito que não. Se não for por princípios, pelo menos por temor das consequências.

Por que, então, o descuido com a administração do futebol? Os bilhões de reais negados causam estragos também no esporte. Um dia essa farra tem de acabar. Quem sabe, não esteja aí o começo de mudança, de fato, no nosso mundo da bola?

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