Vinicius Loures / Câmara dos Deputados
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'Não desejamos mais reflexão, queremos ação', diz lutador de taekwondo Diogo Silva sobre racismo

Atleta comenta sobre movimentos recentes de atletas americanos e o poder do esporte de influenciar a sociedade

Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2020 | 11h00

Diogo Silva foi um dos grandes nomes do taekwondo nacional. Em duas edições dos Jogos Olímpicos, em Atenas-2004 e Londres-2012, suas lutas bateram na trave e ele quase voltou para casa com medalha - em ambas terminou na quarta posição. Foi campeão continental no Pan do Rio, em 2007, e teve outros importantes resultados. Além de brilhar no esporte, ele sempre foi protagonista fora dele, por denunciar o racismo no Brasil, as más gestões e a corrupção. Aos 38 anos, Diogo é representante dos atletas na Confederação Brasileira de Taekwondo.

E conversou com o Estadão sobre as recentes manifestações de jogadores da NBA, que paralisaram a liga profissional de basquete dos Estados Unidos em protesto contra a violência policial - Jacob Blake, um homem negro, foi baleado com sete disparos pelas costas em Kenosha, no Wisconsin. Depois disso, outras ligas esportivas nos EUA também foram paralisadas.

Como você viu as manifestações nos Estados Unidos paralisando competições esportivas por causa de um ataque policial contra um homem negro?

Não foram as manifestações que paralisaram a NBA, a WNBA, a NFL, entre outros. Foram os atletas. A NBA, assim como a NFL, são duas grandes ligas esportivas que têm o negro como protagonista. Os atletas dessas modalidades são organizados, têm sindicato, defendem seus direitos, são unidos e cobram respostas das organizações esportivas e da sociedade. As pessoas gostam de assistir aos jogos, comer seu amendoim e tomar sua cerveja. Os atletas estão dando uma respostas a essas pessoas: se continuarem nos matando, nós vamos ferrar sua diversão, você não terá mais como relaxar; se estiver ruim para nós, também estará ruim para você. Nós estamos falando que os negros milionários que enriqueceram pelo esporte resolveram unir forças e desafiar o sistema. O sistema detesta perder dinheiro e quando um jogo é adiado, é isso que acontece, ele perde dinheiro. O dono do time perde, o torcedor perde, o patrocinador perde.

Você acredita que o esporte tem um potencial de levar reflexões importantes para a sociedade?

Nesse momento é o esporte que está enfrentando o racismo de forma pública. Os atletas negros não estão deixando as manifestações e as cobranças serem uma onda, nós transformamos a onda em tsunami e queremos ver tudo embaixo d'água. Não desejamos mais reflexão, queremos ação.

Você já sofreu com discriminação? Como reagiu?

O racismo no Brasil está em tudo. Somos um País que enriqueceu vendendo café e minérios com trabalho escravo. O racismo estrutural não nos emprega, não permite nosso avanço. Somos um País com democracia e economia instável por causa do racismo. A minha defesa é não querer ser aceito, não desejo me mutilar para ter oportunidade de trabalho, não me curvo e não olho para baixo. Busco conhecimento afrocentrado, a Europa não é a fonte de conhecimento universal. Busco ensinar o que aprendi para meus pares, é dessa forma que me defendo do racismo no Brasil.

O que os atletas brasileiros poderiam fazer para ajudar a melhorar o ambiente esportivo e a sociedade como um todo?

Se cada atleta que sofreu racismo, assim como cada atleta que foi assediada, fizesse um Boletim de Ocorrência e entrasse na Justiça contra seu agressor, nós provocaríamos um colapso no esporte brasileiro. Obrigaríamos uma mudança de regras e normas. É isto que espero dos outros atletas: conhecimento, união e ação.

Você acha que essa postura dos atletas nos EUA pode provocar mudanças na sociedade no futuro?

O futuro de ontem é hoje e já vejo as mudanças. Tempos atrás chamavam nossa causa de mimimi. Onde essas pessoas estão agora? Estão apavoradas, perceberam que não vamos recuar. O esporte pode modificar a sociedade, mas é necessário coragem.

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