Não é máquina

Neymar não precisou jogar fora do Brasil para ficar rico e famoso. Em 2010, exatamente nesta época, o País debatia se Dunga deveria levá-lo ao Mundial da África do Sul ou não. Dois anos depois, na metade do caminho para a Copa de 2014, ele é titular da seleção e o principal condutor do time.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2012 | 03h03

Recentemente, a revista inglesa SportsPro colocou Neymar na ponta do ranking mundial dos atletas com maior potencial de marketing, batendo Messi e Cristiano Ronaldo. Futebol e carisma se juntaram na mesma pessoa. Simpático e cheio de estilo, os marqueteiros identificam nele a capacidade de vender qualquer produto.

Os patrocinadores fazem fila. Todos o desejam, dos fabricantes de bateria de automóvel aos de cueca. Trata-se de um shopping center ambulante. Mas desde que os resultados continuem sendo favoráveis.

Provavelmente muitos já se esqueceram que essa figura pop, capaz de fazer coisas incríveis com a bola, é um ser humano. E para que prossiga exibindo sua arte e faturando com a publicidade, precisa sentir-se bem.

Neymar não se machuca, Neymar está sempre feliz, Neymar adora treinar. Essa é a imagem vendida pelas pessoas mais próximas do menino. É mesmo difícil encontrá-lo de cara amarrada, exceto quando seu futebol é dominado pela marcação ou pelo cansaço.

Em abril, conversamos sobre isso num programa da ESPN. Sorrindo, ele deixou no ar que às vezes sente-se exausto, que se levanta da cama e pensa em voltar para ela. Normal, como qualquer pessoa. Mas o problema é que para ele o ritmo está forte demais.

Neymar, antes de mais nada, é um jogador de futebol. E, como todos os outros, deve respeitar a natureza. O próprio pai já avisou que o filho não é máquina. Mas a agenda de compromissos não é das mais simples e amenas.

Começa com a obrigação de superar o Corinthians depois de amanhã, passa pelos Jogos Olímpicos, pela Copa das Confederações no ano que vem até chegar ao Mundial. Fora o que ainda está para ser criado.

Será que ele aguenta? Tenho minhas dúvidas. Não pela sua capacidade, mas porque o limite de Neymar não está sendo respeitado.

Estaria, então, explicada a derrota do Santos para o Corinthians no primeiro confronto semifinal da Taça Libertadores? Em parte. Neymar é um jogador extraordinário, pode resolver qualquer partida. Mas não seria justo com o Corinthians, que tem muito a ensinar ao Santos e a Neymar sobre o jogo coletivo, sobre o futebol associativo.

Reclamar dos compromissos pela seleção, como fez o presidente Luis Alvaro, não funciona. O que resolve é tirar o pé, por mais dolorido que seja. Exatamente como foi feito ontem contra o Flamengo, apesar da derrota no fim da partida com uma escalação que do verdadeiro Santos não tinha nada.

Se o presidente quiser tocar no problema real, que se mobilize para discutir com seus colegas o calendário do futebol brasileiro. E, assim, encontrará uma saída. Neymar não é máquina.

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