Não é só alegria

Você gosta de trabalhar com gente sorridente, confiável, em geral de astral pra cima? Sim?! Eu também, claro. Tomara pudéssemos nos rodear sempre de pessoas bacanas. Ter colegas boas-chapas faz bem até para a saúde, mas não significa necessariamente eficiência no serviço. Em determinado período convivi com um grupo complicado, cheio de ciumeira, porém talentoso e competente pra chuchu. Não havia clima nem para uma pelada ou rodada de chope, senão saía briga. No entanto, na hora de botar a mão na massa, era insuperável, de dar inveja na concorrência.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

06 Março 2015 | 02h04

A comparação me ocorreu ao acompanhar as explicações de Dunga para a convocação de Robinho para os amistosos da seleção contra França e Chile, dentro em breve. O técnico chamou o santista como parte da estratégia de misturar jovens com jogadores experientes, pela bagagem dele com a amarelinha (as Copas de 2006 e 2010), pelo desempenho no começo de temporada no Paulistão e, também, por ser amigo de Neymar e ter alegria ao jogar.

Nada contra ambiente saudável na labuta, enfatizo para não deixar dúvidas. Também nenhuma restrição quanto às qualidades técnicas de Robinho, embora não o veja hoje como pilar para a reconstrução da equipe nacional. Não o imagino na Rússia em 2018 - e aí não vai preconceito por idade. Em todo caso, torço para que se mantenha.

O que me chamou a atenção foi a referência à proximidade com Neymar e a descontração. Ninguém duvida que o astro do Barcelona hoje é a principal figura da seleção. Muito jovem ainda, já é tido como intocável. Só não sei se a ponto de influenciar, de alguma forma, em convocações. Creio que não.

Igualmente não se recrimina o jeito brincalhão de Robinho, querido pelos companheiros. Só não cabe, num processo que se pretende modernizador, aventar o temperamento do rapaz como um dos motivos para ser convocado. Depois dos 7 a 1, soa raso argumentos como "alegria nas pernas" (como dizia Felipão a respeito de Bernard, um dos mais apagados no Mundial).

A seleção precisa de quem esteja em condições técnicas e físicas impecáveis para defendê-la. Tem necessidade de quem a engrandeça e cresça com ela. Basicamente isso, o que já é muito e complicado para um treinador. Critérios objetivos, que coloquem em segundo plano características pessoais.

Não defendo o encrenqueiro, o boleiro comprovadamente caso perdido, com o qual não se sabe quando contar. Esse perde espaço com naturalidade, assim acontece com qualquer trabalhador em qualquer atividade. Agora, se o sujeito é bacana ou antipático, tanto faz, desde que faça o dele com apego.

A lista de Dunga não tem nomes portentosos e merece reparo aqui e ali, como é tradição desde que existe a seleção. No todo, reflete o período de vacas magras no que se refere a craques, é retrato da média baixa do futebol brasileiro nesta metade dos anos 2010. Oscar, Willian, Philipe Coutinho, Tardelli e Elias são bons jogadores e só. A destoar, apenas o Neymar.

Não tenho expectativa além da conta com a seleção. Deve jogar feijão com arroz, eventualmente com uma mistura gostosa, na base de vitórias aqui, uma taça acolá e o ufanismo utilitário da turma de sempre. Continuaremos a exaltar muito jogador meia-boca, para alegrias de dirigentes e investidores. Dunga não comandará revolução, nem foi chamado para tal. Não há como esperar uma guinada modernizadora na CBF de Marin/Del Nero e fiéis escudeiros. Não combina, não orna.

"Jovem. E aposentado". Esse foi o título de crônica minha na semana passada, na qual abordei o projeto do deputado Andrés Sanchez para aposentadoria especial para atletas profissionais. No texto sugeri que, em vez de onerar o INSS, que se incentivassem CBF, federações e clubes a terem previdência privada para os jogadores. Recebi mensagem do deputado em que se compromete a estudar a sugestão. Agradeço a atenção e espero que seja viável.

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