Não é só cansaço

A derrocada dos brasileiros na Libertadores, com exceção do Santos, e alguns outros resultados surpreenderam muita gente, a começar pelos "especialistas" (se é que há especialista em futebol). A maioria das explicações apontou para o cansaço decorrente do calendário brasileiro, que é o que menos tempo oferece de férias e pré-temporada aos atletas. Mas o fator qualidade não pode ser menosprezado. Tal como os times, os comentários parecem sofrer do complexo de superioridade: nunca perdemos para um adversário melhor... Isso vale para clubes grandes do sudeste também. Se um Palmeiras toma seis do Coritiba, é porque estava ainda sob efeito da desclassificação para o Corinthians no Paulistão; se ganhasse, as mesmas pessoas diriam que foi porque o time agora podia apostar num torneio só.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2011 | 00h00

Sim, já falei muito aqui sobre a necessidade de ter campeonatos estaduais mais curtos, que deem mais descanso aos jogadores e não encavalem na fase final com a de Libertadores e Copa do Brasil. As lesões estão aí para demonstrar a dificuldade. Hoje o Santos pega o Once Caldas sem Ganso e Arouca, ausências sérias, e com isso o Brasil corre o risco de ficar sem representante nas semifinais. Mas nada disso significa que a rodada passada foi uma manada de zebras, já que Cruzeiro, Internacional, Fluminense e Grêmio foram "saídos". Mesmo o Cruzeiro, que vinha jogando o futebol mais vistoso entre os brasileiros, com meias como Roger e Montillo e a revelação Wallyson, em nenhum momento foi brilhante. Admiro alguns recursos de Roger, mas um time depender tanto dele não podia ser bom sinal.

A realidade do futebol brasileiro é que sofreu uma entressafra considerável nos últimos anos, tanto que os melhores do campeonato de pontos corridos foram argentinos, volantes ou goleiros (salvo Adriano, que nem jogou nada demais em 2009 pelo Flamengo). Apesar do retorno de alguns craques, ou de ex-craques como Ronaldinho Gaúcho, o nível médio ainda não faz jus à história do futebol brasileiro. Desde o Cruzeiro de Alex em 2003, não se vê um time realmente memorável. E mesmo com o formidável surgimento de alguns nomes do ano passado para este, como os citados Ganso e Wallyson e mais Neymar e Lucas, entre outros, eles ainda são poucos e novos. Que bom que o Brasil ganhou os últimos mundiais sub-17 e sub-20, mas, claro, ainda é preciso que essa geração amadureça.

Esse engano sobre a real qualidade geral do futebol jogado hoje em gramados brasileiros foi visto também na reação a jogos como o primeiro da final entre Corinthians e Santos, domingo passado, no Pacaembu. Por ter tido três bolas na trave e algumas chances reais de gol, como a bola de Danilo encobrindo Júlio César que Chicão afastou, o empate por 0 a 0 foi considerado emocionante, um "jogão", etc. Não foi nada disso, embora não tenha sido monótono. Os dois times atacavam com poucos jogadores, de forma desarticulada, com número impressionante de erros de passes e chutes. Os laterais subiam pouco, os meio-campistas se concentravam na marcação, ninguém mostrava visão de jogo. Ambos os treinadores pensaram antes em anular do que em açular o outro. Fora algumas jogadas de Neymar, quase nada se via de criativo ou inteligente.

Felizmente o jogo não seguiu a rotina vigente no futebol nacional, a de uma quantidade de faltas de dar inveja a retrancas italianas. Pois não dá para refletir sobre o assunto sem considerar este dado. Tido e pranteado como um futebol "técnico", ele é cada vez marcado por trombadas, por desprezo à posse de bola, por jogadas aéreas. Jogadores como Neymar e Lucas vão na contramão. Precisamos recriar uma cultura que dê ênfase a esse estilo, brasileiro por excelência, que não confunde futebol-arte com malabarismo nem futebol-ciência com burocracia, que combina a invenção com a maestria. Como Pelé, que antecipava jogadas como um enxadrista e desconcertava zagueiros como um ilusionista, precisamos abandonar as dicotomias. Só aí deixaremos de viver apenas de quase aposentados e pseudo revelações.

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