''Não entro mais em furada''

Campeão brasileiro de 2009 com o Flamengo e rebaixado para a Série C em 2010 com o Brasiliense

Bruno Lousada/ RIO, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2011 | 00h00

Um ano depois de ter sido campeão brasileiro pelo Flamengo e eleito o melhor técnico da competição, Andrade viveu o outro lado da moeda: assumiu o Brasiliense em situação delicada na tabela, depois de ficar cinco meses desempregado, e não evitou o rebaixamento do time para a Série C do Brasileiro. Foi dispensado no fim da última temporada e está à procura de um clube.

"Fiquei triste (com a queda do Brasiliense), mas sempre se ganha alguma coisa. Às vezes, os resultados adversos lhe dão mais amadurecimento do que as vitórias. As vitórias enganam também", disse, em entrevista ao Estado.

Na época de jogador, Andrade nunca precisou de empresário. Agora, como treinador, sentiu necessidade. "Nesse meio, não precisa ser tão qualificado, tão competente, vale mais ter alguém que o indique."

Em dezembro, ele firmou acordo com Cláudio Guadagno e Fábio Luciano para representá-lo e, quem sabe, facilitar sua vida no mercado. "Não quero entrar numa furada. Assim, evita desgastar a imagem. O melhor é aguardar do que pegar qualquer coisa (time)."

Está negociando com algum clube?

Conversei com o Duque de Caxias (time de menor expressão do Rio), mas a negociação não foi para frente. Depois disso, não recebi nenhum contato. Estou aguardando convite.

Fica ansioso para voltar a trabalhar?

No momento, eu tenho de ter calma, paciência para não entrar numa furada. Assim, evita desgastar a imagem. O melhor é aguardar do que pegar qualquer coisa.

O ideal é assumir um time no início de temporada?

Sim. Passei por essa experiência no Brasiliense, no ano passado, e percebi que pegar uma equipe no meio da competição é complicado, muito complicado. Cheguei lá e encontrei um grupo meio desmotivado, mal fisicamente e com padrão definido de jogo. Aí é preciso fazer mudanças, dar condicionamento físico e padrão de jogo ao time e, muitas vezes, não há tempo para isso. O melhor é montar a equipe do jeito que você deseja.

Arrepende-se de ter aceitado o convite do Brasiliense?

Não me arrependo. Foi uma boa experiência.

Como é num ano ser campeão brasileiro pelo Flamengo e no outro terminar rebaixado para a Série C do Brasileirão?

São duas situações diferentes. Em 2009, eu estava num time grande, de massa e no ano seguinte assumi um time (o Brasiliense) que disputava a Segunda Divisão do Brasileiro, num clube que não tem a dimensão do Flamengo. Fiquei triste (com a queda do time do Distrito Federal), mas sempre se ganha alguma coisa. Às vezes, os resultados adversos lhe dão mais amadurecimento do que as vitórias. As vitórias enganam também.

O descenso com o Brasiliense pode atrapalhá-lo a voltar para um clube de ponta do futebol brasileiro?

Isso é bobagem. Fui campeão brasileiro com o Flamengo depois de 17 anos (de jejum) e essa conquista não me ajudou muito no início, não foi um ponto a favor. Além de mim, no ano passado, caíram mais sete treinadores, três da Série B e quatro da Série A, e muitos estão aí trabalhando. O futebol é muito dinâmico.

Normalmente, um técnico campeão nacional valoriza-se demais no mercado. Após ganhar o Brasileirão, você aguardou um bom tempo até acertar com o Brasiliense. Você ainda busca explicações para isso ter ocorrido?

Houve algumas colocações maldosas em relação ao meu trabalho (a diretoria rubro-negra alegou falta de comando para demitir Andrade em abril de 2010). Isso me atrapalhou bastante no mercado.

É importante para o treinador ter empresário?

Nunca trabalhei com empresário. Mas, agora, vou trabalhar com (os empresários) Cláudio Guadagno e Fábio Luciano. Fechei com eles há cerca de um mês. Já conhecia o (ex-zagueiro) Fábio Luciano, trabalhei com ele no Flamengo e nos damos bem. É uma pessoa íntegra. Notei que (na função de técnico) é importantíssimo ter empresário. Nesse meio, não precisa ser tão qualificado, tão competente, vale mais ter alguém que o indique.

Zico e Júnior, na função de dirigente, e você, como treinador, não ficaram o tempo que queriam na Gávea. O que acontece no Flamengo que não poupa ídolos como vocês?

Viemos de uma outra época. Temos outra forma de trabalhar. Talvez isso tenha dificultado nossa permanência no Flamengo. Hoje as coisas mudaram muito.

O que mudou?

A relação com o jogador mudou. Virou um mercado. Além disso, não se trabalha mais com o amor que se tinha ao clube antigamente. Hoje, não existe mais isso, entende? Primeiro é o dinheiro, depois o clube. Ainda tenho o conceito de que primeiro é o clube, acima de qualquer coisa. Na minha época, se tivesse que abrir mão pelo clube, tinha que fazer isso. As pessoas não pensam mais assim. Por isso, atualmente, um time como o Flamengo se vê nessas condições, cada dia pior.

O meia argentino Conca foi eleito no ano passado o melhor jogador do Brasileiro. Os conterrâneos D"Alessandro e Montillo também se destacaram. O futebol brasileiro está carente de meias criativos?

Existe uma carência muito grande e isso vem das categorias de base. Hoje, os clubes ficam muito preocupados com a parte tática. O futebol brasileiro copiou o europeu e acaba tirando a liberdade do garoto de criar. Temos apenas o Ganso, do Santos, e o Douglas, do Grêmio, como homens de criação. São poucos no mercado brasileiro. O treinador da base, geralmente, prefere o jogador mais brucutu, de força. Acaba não prestigiando o talento e tem de que ser o contrário. O talento é que faz a diferença.

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