Não estraguem os craques

O ano de 2010 deveria servir para pensar no estado atual do futebol brasileiro, nas lições que deveriam ter sido aprendidas e não foram, apesar de claríssimas. Muita gente está preocupada se os estádios para a Copa de 2014 estarão prontos, mas isso é o que menos preocupa, afinal a Fifa não vai deixar passar esse fiasco; o que preocupa é a série de outras melhoras que mal foram iniciadas, como em aeroportos, metrôs e segurança, e a qualidade do futebol brasileiro que será apresentado nesses estádios. E esta falta de qualidade tem a ver com o primarismo do debate. Num ano em que o melhor do Brasileirão foi um argentino, o Brasil perdeu feio na Copa e não há nenhum jogador brasileiro entre os dez melhores do mundo, há algo de podre no "país do futebol". Não adianta disfarçar.

DANIEL PIZA, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2010 | 00h00

Comecei a escrever sistematicamente sobre futebol em 1997 porque indignado com a maledicência e a incapacidade de admiração em torno de uma geração de craques que me enchia de esperanças. O que a crônica esportiva tinha a dizer sobre esses talentos em ascensão? Que eram produtos do marketing globalizado, milionários sem identidade nacional, sujeitos "europeizados" fora da tradição. Que jogavam um futebol de força, "objetivo demais" (segundo Armando Nogueira), sem a ginga tropical, etc. Sim, acredite: tudo isso foi dito e redito sobre a geração que seria vice em 1998 e campeã em 2002, que tinha jogadores da sofisticação de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos, Cafu e Marcos. Hoje, claro, é como se ninguém tivesse feito tais afirmações.

Pois essa geração não só arrebatou uma enormidade de prêmios individuais e títulos coletivos, mas também deixou um vazio difícil de preencher. Ainda que um jogador como Robinho tenha sido exaltado como sucessor de Pelé (e jamais ficou na lista dos melhores do mundo) e Kaká tenha ganhado o prêmio em 2007 por seus gols pelo Milan na Copa dos Campeões (no auge de suas condições físicas), não houve substituição à altura. Robinho é ótimo driblador, mas chuta fraco e é disperso; Kaká tem arranque forte, com passadas largas, mas é limitado nos espaços curtos. Com Dunga no comando da seleção em 2010, pregando um futebol "de pegada" e ignorando jovens como Ganso, a dupla não vingaria mesmo.

Entressafras são naturais. Mas ficar numa discussão descabida sobre o que seria a tal essência do futebol brasileiro só piora tudo. Temos de um lado um grupo que acha que o futebol hoje exige muita velocidade e vigor e, portanto, que se deve jogar ao estilo dos clubes ingleses ou italianos, com a planilha na mão. Do outro, um grupo que diz que fazer gol é um detalhe, um "mero avanço numérico" (na expressão de José Miguel Wisnik), e que o jogador brasileiro faz a diferença quando quer.

É a velha briga entre estatísticos e esteticistas. Mas a verdadeira escola brasileira, a linhagem de seus maiores jogadores e times, não é a que opõe tática e técnica, drible e deslocamento, inteligência e habilidade. O craque é quem pensa rápido, é quem usa a surpresa para superar um adversário. Pelé, repito, era objetivo e criativo, mestre e inventor, atleta e artista - e por isso sempre será a maior referência, exceto em nossas escolinhas de futebol.

Os oito campeonatos por pontos corridos, fórmula ainda rejeitada pelos românticos, ironicamente confirmaram essa história, apesar do nível técnico sofrível. Os clubes que investiram em grandes elencos e nomes (Alex, Robinho, Tevez, Hernanes, Adriano, Conca) tiveram o título como retorno.

Na Copa de 2010, vimos finalmente uma nova seleção como campeã, a Espanha, comandada por Xavi e Iniesta, e o Brasil de Felipe Melo desclassificado de forma melancólica. Outros baixinhos dominam a lista dos melhores do mundo, como Messi e Sneijder. Os talentos, enfim, devem ser induzidos a produzir resultado, e não castrados ou então exaltados por efeitos. Se pararem de estragar os potenciais craques com esses tipos de elogio e crítica, aí sim teremos alguma chance.

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