Não há quem entenda o futebol

JORGE

Jorge Valdano, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2014 | 02h05

VALDANO

A sexta-feira foi um mau dia para o talento. Todos os gols resultaram de bola parada, zagueiros fizeram uma farra na área adversária e Neymar, o jogador pop, e James, encantador e letal, acabaram fora - um por lesão e outro por eliminação. Terminava o pior dia do melhor Mundial de todos os tempos.

O Brasil começou tentando atropelar a Colômbia e conseguiu num primeiro tempo trepidante - que teve pouco a ver com futebol e que o árbitro não soube decifrar em nenhum momento.

Para esta festa do excesso físico, Neymar não foi convidado, só entrando em cena para sair de maca quando a Colômbia descobriu que tinha permissão para bater e reivindicou sua parte. Uma pena para o Brasil, que perde seu jogador mais otimista, e para o campeonato, que perde um dos raros artistas que eliminam rivais com a finta.

Neste Brasil de jogo angustiado e febril, os zagueiros se transformaram em pilares. Começaram o Mundial governando sua própria área e já se sentem com autoridade para conquistar a área adversária com gols que são gritados como se fossem exorcismos. A Colômbia mostrou coragem, mas, para desativar a febre competitiva que o Brasil propunha, faltava jogo. Futebol. E ela não saiu da partida sem mostrar que o tinha, mas isso ocorreu muito no final, quando cada minuto durava 30 segundos.

Com dois a zero contra, James se rebelou, enfiou uma bola em profundidade e redonda que Carlos Bacca procurou com desespero para provocar o pênalti de Julio Cesar. James cobrou com categoria e, desse momento em diante, pôs o Brasil a tremer cada vez que sua esquerda tocava a bola, como se fosse um violino. Não bastaram nem a rebelião final da Colômbia nem o magnífico talento de James nem o tempo, que sempre pertenceu ao time brasileiro.

O que nos oferecerá o próximo Alemanha (com seu perfil abrasileirado) e Brasil (com seu futebol germanizado) é uma incógnita. Em vista do que se viu nas duas últimas partidas, dá vontade de pedir que destroquem os papéis.

O sábado prometia ser mais generoso, porque Messi estava em campo e porque, mal Argentina x Bélgica havia começado, Higuaín decidiu se apossar de uma bola perdida. Um gol com a pelota em movimento nas quartas de final com apenas oito minutos de jogo.

Mas aí acabou a festa e começou uma partida que modificou a percepção sobre a Argentina, que não mudou seu estilo, mas sua intenção.

A Holanda decidiu honrar a quarta final e a si mesma com uma atuação irrepreensível. Ela deixou de lado a inteligência tática e atacou por toda a frente de ataque, com uma posse de bola abusiva, que teve a virtude adicional de não oferecer à heroica e organizada Costa Rica mais que uma ocasião.

A esta grande Holanda espera a Argentina, enfraquecida pelas lesões, em plena busca de novo equilíbrio e com um Messi humano. Mas nada disso é definitivo porque, de uns dias para cá, não há quem entenda o futebol.

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