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Ugo Giorgetti
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Não somos argentinos

Não se espere solidariedade da torcida brasileira. Não somos argentinos, não ficamos pulando, saltando e cantando enquanto o time joga mal e às vezes está perdendo feio. Algumas figuras fantasiadas, com perucas e máscaras, podem dar a falsa impressão de que somos torcedores em delírio. Não somos. Não contem conosco quando o time joga mal. Aconteceu contra o México. Em vão Felipão e parte da crítica trataram de exagerar os méritos do México. Em vão. Por mais que muitos digam que é uma grande equipe, sabemos que não é. É uma modesta e aplicada equipe como tantas outras que nos enfrentaram no passado e se deram muito mal. Nada nos fará cantar quando o time não atua bem. Fomos muito mal acostumados. Vimos grandes equipes, vimos grandes jogadores e não podemos admirar jogadores médios apenas porque são brasileiros. Esta seleção pode até ganhar o mundial. É um torneio muito curto, coisa que causou surpresa em Garrincha, que esperava mais jogos e maiores dificuldades.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2014 | 02h04

Mas a equipe é modesta. Por isso, quando ela começa a fazer o jogo de acordo com suas possibilidades, a torcida logo percebe. Se há uma coisa que o torcedor brasileiro entende é futebol bem jogado. Todos, ricos ou pobres, no estádio ou pela televisão, vimos grandes espetáculos e sabemos identificá-los. É nossa tradição. Para isso foi preciso vencer cinco mundiais e ser vice duas vezes. E essa tradição vem também dos times. Não posso falar de outros Estados, mas em São Paulo nem a Fiel torcida do Corinthians canta o jogo inteiro. Para fazê-la cantar é preciso que o time mostre a que veio. A torcida do Palmeiras começa a reclamar aos 15 do primeiro tempo e no fim dessa etapa já há muitas vaias se a coisa não anda. A torcida do São Paulo essa, então, nem se dá ao trabalho de ir ao estádio.

Assim é a cidade de São Paulo, aliás, onde todas as seleções medianas têm medo de jogar. Mas não acho que no Rio as coisas sejam diferentes. Haverá mais alegria, talvez, mas não contem com torcida incondicional. Em todo o Brasil a coisa é a mesma. Contra o México, quando se jogava em Fortaleza, houve um silêncio de grande eloquência da torcida brasileira enquanto os mexicanos se esgoelavam no estádio. No Sul, às vezes, há uma cômica tentativa de parecer argentinos, principalmente por parte da torcida do Grêmio. Mas são brasileiros. E lá também rapidamente acabam os cantos e começam os murmúrios, críticas e vaias. Isso é o que dá por termos sido tão mal acostumados. E o pior é que em qualquer jogo de Copa antigos fantasmas reaparecem. Deveriam, por exemplo, proibir o Pelé de aparecer diante das câmeras durante as Copas. Sempre quase com a mesma cara, apesar da idade, lá está ele a nos lembrar do melhor. Que exigimos e não vamos parar de exigir. A qualidade do futebol brasileiro pode ter caído muito, mas não a dos torcedores. Somos ainda os mesmos de 70, 82 ou 2002. Não queremos nada melhor nem pior. Queremos apenas futebol. Os argentinos podem ficar com a cantoria.

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