Rafael Marchante/ Reuters
Rafael Marchante/ Reuters

'Não sou anti nada. Sou pró-Havaí', diz John John Florence

Surfistas da delegação olímpica americana do Havaí preferem competir com a bandeira do Estado

John Branch, The New York Times

25 de maio de 2021 | 15h00

HONOLULU - Quando John John Florence viaja pelo mundo para participar de competições de surfe de elite, carrega consigo uma bandeira para balançar no caso de uma vitória. Ela é a mesma que está no ombro de sua camisa e ao lado de seu nome no placar. Não se trata da bandeira dos Estados Unidos, mas da bandeira do Havaí. Isso porque, na Liga Mundial de Surfe e no surfe de modo geral, há um entendimento: ou você representa o Havaí, ou você representa os EUA. Você não representa os dois.

A explicação mais simples é que o Havaí é o berço do surfe e continua sendo o coração cultural do esporte. Os residentes do Havaí - principalmente os havaianos nativos, mas também aqueles que simplesmente nasceram e foram criados lá, como Florence - se apegam a essa herança porque o surfe pode ser a mais forte das conexões esmaecidas com a história deles antes da colonização. No entanto, quando o surfe fizer sua estreia na Olimpíada de Tóquio, não existirá essa tal delimitação entre o Havaí e a parte continental dos EUA. O Havaí desaparecerá como uma entidade de surfe separada.

Dois dos quatro americanos da delegação, Florence e a tetracampeã mundial Carissa Moore, nasceram e cresceram no Havaí e sempre competiram com a bandeira do estado. Carissa continua fazendo isso este mês, enquanto participa de grandes eventos mundiais na Austrália. (Florence está se recuperando de uma lesão no joelho.) Os outros atletas olímpicos, Kolohe Andino, da Califórnia, e Caroline Marks, da Flórida, competem com a bandeira americana.

Todos os quatro estarão no Japão representando os EUA. “Há um pouco de tensão com isso, ir para a Olimpíada com a bandeira dos EUA”, disse Florence em sua casa na costa norte de Oahu, em um pátio com vista para um dos melhores trechos de praias para prática do surfe do planeta. “Não quero dividir nada. Não sou anti nada. Sou pró-Havaí.”

Florence e Carissa querem muito evitar o viés político, mas é impossível ignorar as ondas históricas e culturais que se agitam em torno deles. Velhos debates surgiram nos últimos anos, em relação a apropriação e independência, sobre colonização e comercialização e a respeito de como proteger o que significa ser havaiano ou do Havaí.

Por todos os cantos das ilhas, nos carros e nas varandas, as bandeiras do Havaí tremulam de cabeça para baixo, um sinal de perigo. A luta contra os planos de construir um telescópio gigante no topo de Mauna Kea, a montanha mais alta do Havaí, fez a temperatura esquentar em 2019 e ainda fervilha até hoje. O projeto é visto por muitos como o caso mais recente de forasteiros desrespeitando os nativos havaianos.

Alguns dizem que este é um despertar periódico e uma defesa de uma cultura que muitos nativos havaianos sentem que está desaparecendo. Tudo isso tem como pano de fundo o que os americanos fizeram na década de 1890, tirando do poder a rainha do Havaí e anexando as ilhas. Muitos havaianos ainda veem os EUA como invasores.

O surfe quase foi extinto pelos colonizadores brancos no século 19. Incluir o esporte na Olimpíada é tanto uma questão de orgulho quanto uma forma de trazer à tona questões de identidade. “O Havaí teve muita história apagada”, disse Duane DeSoto, campeão mundial de longboard de 2010. “O surfe venceu a possível aniquilação que o levaria ao esquecimento. Ele suportou o desafio de ser exterminado uma vez. E agora precisa ser uma fonte de orgulho havaiano. ”

‘Surfando uma imensa onda’

A praia de Makaha, no lado oeste de Oahu, pode ser o lar do surfe competitivo moderno, mas não atrai muitos turistas. Fora do caminho de Waikiki ou North Shore, é uma praia frequentada por moradores, um banco de areia onde as ondas quebram no inverno. Debaixo das árvores perto do estacionamento em um sábado de novembro estava Brian Keaulana, parte de uma família da realeza do surfe.

Ele é um clássico “waterman” (homem da água) - o mais alto termo de respeito no Havaí para aqueles bem treinados em todos os tipos de surfe e esportes oceânicos, na tradição de Duke Kahanamoku. Keaulana é surfista de ondas gigantes e fundador da Hawaiian Water Patrol, que trabalha em competições de surfe e filmagens comerciais nas ilhas.

Nos fins de semana, ele costuma ser visto com a família e amigos em uma praia onde campeonatos mundiais não oficiais de surfe foram realizados na década de 1950. Eles brincam na água e relaxam na sombra, compartilhando velhas histórias e mordidas de Spam musubi, uma espécie de sushi feito com carne enlatada no lugar de peixe.

“Na cultura do surfe em todo o mundo, todos veem o surfe havaiano como um universo a parte”, disse Keaulana. “Até os surfistas da Califórnia veem o Havaí de maneira diferente. Mas a Olimpíada nos vê como parte de uma mesma coisa.” Enquanto a maioria das primeiras culturas polinésias desenvolveram alguma forma de bodyboard rudimentar, nenhuma o fez como os havaianos, de acordo com o escritor e historiador de surfe John Clark. A expedição do capitão britânico James Cook desembarcou em 1778 e observou as pessoas surfando. Os primeiros forasteiros que chegaram ficaram espantados.

“Ver 50 ou 100 pessoas surfando em uma onda imensa, meio imersas em spray e espuma, por uma distância de várias centenas de metros juntas, é um dos esportes mais novos e interessantes que um estrangeiro pode testemunhar nessas ilhas”, um missionário chamado William Ellis escreveu em 1822, de acordo com o livro de Clark "Hawaiian Surfing: Traditions from the Past" (Surfe havaiano: tradições do passado, em tradução livre). Não há evidências de alguém surfando em pé antes dos havaianos, disse Clark durante uma entrevista. Eles realizaram competições, criaram templos e divindades do surfe.

“O ponto principal é que os havaianos abraçaram o surfe muito mais do que qualquer outro povo no mundo - tecnicamente, no design da prancha e no seu nível de habilidade”, disse Clark. “E o surfe se torna tão enraizado que passa a ser o passatempo nacional. Todo mundo o pratica. A realeza o pratica. Assim como plebeus, crianças, idosos, homens e mulheres.”

Os britânicos nunca chegaram a assumir o comando do Havaí. Em 1810, a cadeia solta das ilhas havaianas se uniu sob Kamehameha I - um surfista renomado. Os EUA reconheceram a independência havaiana em 1826 e passaram décadas persuadindo outros países a não anexar as ilhas. Mas as notícias da existência do Havaí se espalharam, causando grande rebuliço. Era uma terra fértil para os forasteiros recriarem. Ela atraiu baleeiros, missionários e proprietários de terras que usavam o sistema agrícola plantation, trazendo bíblias, doenças e o senso de direito de um colonizador.

As doenças exterminaram aproximadamente 90% dos nativos havaianos até o final do século 19, diminuindo seu número para cerca de 30 mil a 40 mil. Em pouco tempo, eles foram ultrapassados em número pelos imigrantes, principalmente da Ásia, que vieram trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar, em grande parte propriedade de americanos que governavam a política insular.

Então, os EUA viram vantagens econômicas e militares no Havaí; Pearl Harbor foi fundada como base naval em 1887. Em 1893, com a bênção do governo americano e o apoio dos fuzileiros navais, latifundiários liderados por Sanford B. Dole destituíram a rainha Liliuokalani. Dole foi empossado como presidente da província. A anexação total veio em 1898, e a criação de um estado em 1959.

Uma conexão com as águas

Seth Moniz, um nativo havaiano, estava competindo por uma vaga na equipe olímpica dos EUA. Isso foi no final de 2019, no final da temporada da Liga Mundial de Surfe, quando ninguém tinha ideia de que uma pandemia adiaria a Olimpíada de 2020 em um ano. A temporada da Liga Mundial de Surfe tradicionalmente termina com a “Tríplice Coroa Havaiana” - eventos sucessivos em Haleiwa, Sunset Beach e Pipeline, todos na costa norte de Oahu. É o coração do surfe mundial, uma extensão de praias de areia branca apoiada por uma estrada de duas pistas e com ondas épicas na frente.

“Eu ficaria honrado em representar os EUA, é claro, mas preferiria representar o Havaí se fosse para a Olimpíada”, disse Moniz entre as baterias. “Eu gostaria que pudéssemos ter uma voz ou representação. Eu e outros surfistas havaianos, talvez tenhamos que fazer um esforço para que a bandeira havaiana esteja na Olimpíada. ”

O circuito é dominado por surfistas de quatro lugares: Brasil, Austrália, EUA e Havaí. Em termos de surfe, não há conflito entre americanos e havaianos, apenas uma distinção. Os surfistas esperavam por equipes olímpicas separadas, pelo menos para aumentar as chances deles participarem da competição. “Se isso acontecer, estarei na Olimpíada”, disse Kelly Slater durante o último fim de semana de qualificação olímpica em dezembro de 2019.

Mas isso não aconteceu. Slater, da Flórida, perdeu a última vaga da delegação olímpica dos EUA para Florence. Moniz ficou em segundo lugar entre os surfistas do Havaí, mas também não estará em Tóquio. Fernando Aguerre, um argentino que mora no bairro de La Jolla, em San Diego - ele e seu irmão fundaram a marca de sandálias Reef em 1984 e depois venderam a empresa - é presidente da Associação Internacional de Surfe desde 1994. Incluir o surfe na lista de esportes da Olimpíada tem sido sua missão.

Porém, a criação de uma equipe separada para o Havaí nunca foi considerada oficialmente pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), que aplica algumas delimitações confusas em torno dos territórios insulares, usando uma linguagem vaga em relação à autonomia. Porto Rico está entre os territórios americanos com equipe olímpica própria.

“O Havaí é diferente dentro do mundo do surfe”, disse Aguerre, cujo filho tem Kahanamoku como nome do meio, em homenagem a Duke. “Mas, no mundo geopolítico, o Havaí faz parte dos EUA.” No ano passado, a Autoridade de Turismo do Havaí criou um Comitê Consultivo do Surfe com 15 participantes, em parte "para garantir que restabeleceremos o Havaí como o lar do surfe", disse Kalani Kaanaana, diretor de assuntos culturais e recursos naturais do grupo.

A Olimpíada pode não ter sido o único motivo para a formação do comitê, mas foi um catalisador. DeSoto faz parte do comitê, que se reuniu pela primeira vez neste mês. “Precisamos amplificar as vozes havaianas no surfe globalmente e garantir que a cultura havaiana não seja ainda mais extirpada da cultura global do surfe”, disse DeSoto posteriormente. “Não haver uma delegação de surfe do Havaí representada na Olimpíada é uma palhaçada.”

‘Presente do Havaí para o mundo’

Ninguém simboliza mais o surfe havaiano do que Kahanamoku. Nascido em 1890 e criado em Waikiki, ele se tornou o primeiro "waterman" famoso do Havaí e o maior embaixador do surfe. Tendo participado de três Olimpíadas e ganhado cinco medalhas competindo na natação - o surfe estava a um século de se tornar um esporte olímpico - Kahanamoku é homenageado por uma estátua que fica no centro de Waikiki, no coração turístico de Honolulu.

“Ele andou por aí surfando, compartilhando isso com as pessoas ao redor do mundo, e foi seu maior presente”, disse Ezekiel Lau, um dos melhores surfistas havaianos no circuito mundial. “O que o tornou um presente do Havaí para o mundo.”

O esporte ganhou popularidade e se espalhou, impulsionado por avanços em espuma e fibra de vidro, pelos Beach Boys e filmes de surfe, pelo "tiki bares", pelo programa de TV "Wide World of Sports" da ABC, que mostrava esportes quase nunca vistos na televisão; pela Liga Mundial de Surfe e pela busca das ondas gigantes atualmente.

Lau está entre os que estão contentes com a presença do surfe na Olimpíada, mas insiste em que os laços com o Havaí não sejam esquecidos. Ele se sentou em uma varanda com vista para Sunset Beach, um dos melhores pontos de surfe do mundo. “Vocês podem exterminar nossa população, anexar nosso reino, tomar emprestadas nossas tradições em nome de bugigangas baratas e da comercialização, e por aí vai. Podem tentar construir telescópios ou hotéis internacionais ou bases militares que ameacem diluir nossa cultura ancestral”, disse Lau. Mas vocês não vão tirar o surfe de nós.”

“A cultura havaiana tem sido um pouco ocultada, mas parece que há uma nova energia, um renascimento em compartilhar nossa cultura com o mundo”, afirmou. “Sinto que o surfe está na vanguarda disso, e ele se tornar parte da Olimpíada é muito importante para nós”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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