'Não sou craque. Sou esforçado e carrego piano'

Gilberto Silva, Jogador da seleção brasileira

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

A história de Gilberto Aparecido da Silva na seleção brasileira não começou bem. O volante estreou no dia 9 de novembro de 2001, na derrota por 3 a 1 para a Bolívia, pelas Eliminatórias. Mas as lembranças ruins param por aí. Sete meses depois, o Brasil levantava a taça do pentacampeonato e Gilberto consolidava sua posição no time.

A maior prova disso é que ele sempre esteve nas listas de convocados. Depois de Luiz Felipe Scolari, o primeiro a levá-lo, a seleção ainda foi dirigida por Carlos Alberto Parreira, que o chamou para a Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, e agora Dunga, que tem em Gilberto um de seus jogadores de confiança. Mas o jogador do Panathinaikos, da Grécia, vive um dilema. Ao mesmo tempo que desfruta de moral junto aos treinadores, é contestado pela opinião pública. "Isso ocorre porque não sou um craque, sou um jogador esforçado", analisa. "Tenho essa consciência e tento simplificar meu trabalho."

Você começou a jogar futebol tarde, com 20 anos?

É verdade. Quando era da base, joguei no América-MG. Mas com 17 anos, tive de abandonar para voltar à minha cidade, Lagoa da Prata (200 quilômetros de Belo Horizonte), pois minha família passava um período difícil e tinha de ajudá-la. Uns dois anos depois, a situação melhorou e pude voltar a treinar no América. Nesse momento já estava com quase 20 anos.

E o que fez nesses dois anos?

Eu trabalhava em uma fábrica de doces. Fabricávamos doce de leite, caramelos, leite em pó...

Com tanta caloria em volta, perdeu a forma nessa época?

Que nada. No começo você até come alguma coisa. Depois, não tem vontade nem de olhar para aquilo. Além disso, procurava treinar. Claro que não em ritmo profissional, mas dava minhas corridas, jogava bola algumas vezes por semana com os amigos e com o time da fábrica.

E já era volante?

Já era. Mas naquele tempo eu também jogava de zagueiro.

Ao mesmo tempo que todo treinador que passa pela seleção te adora, parte da torcida contesta sua presença. Qual a explicação?

Na cabeça das pessoas, seleção brasileira representa espetáculo. Tenho consciência de que não sou um craque. Por isso procurei simplificar ao máximo meu trabalho com eficiência. Na minha função, sou o que chamam de carregador de piano. E todo treinador gosta disso.

Mas em algum momento você se sente desvalorizado?

Às vezes me aborrecia, mas agora estou tranquilo. Passei por esse processo também no Arsenal. Lá só me valorizaram quando fiquei fora, pois a equipe teve uma queda muito grande. Não que tudo isso tenha sido por minha causa, mas contribuiu.

Costuma assistir a jogos na folga?

Assisto quando estou em concentração. Em casa prefiro dedicar esse tempo para ficar com meus filhos.

Acompanha o futebol brasileiro?

Claro. Converso sempre com o Gabriel e Cleiton, que jogam aqui na Grécia comigo. Falamos muito sobre o time do Santos, sobre esse garoto Caio, que sempre entra bem no Botafogo...

Quando não entendemos alguma coisa, costumamos dizer que "estão falando grego". A língua é tão difícil assim?

Rapaz, é muito complicado. Eu não me arrisco, deixo para as meninas. O que facilita minha vida aqui é que muita gente fala inglês. E como morei na Inglaterra, domino bem o idioma.

E a seleção, qual a principal força dessa equipe na Copa?

Creio que a harmonia que conseguiram criar entre a comissão técnica e o grupo. Há uma sincronia muito grande. Claro que sempre haverá contestação, faz parte. E sabe como é, no caso de seleção brasileira, todo o tempo de preparação é pouco.

Fala-se muito na convocação desse ou daquele jogador para a Copa. Ainda há espaço para surpresas na lista final?

Isso é com o Dunga. Mas não acho que exista algo muito diferente para acontecer.

Rápido. Fora o Brasil, qual a melhor seleção do mundo?

Espanha e Inglaterra

O melhor jogador?

Messi

O melhor time?

Barcelona

O melhor técnico?

Ferguson (Alex Ferguson, técnico do Manchester United) E quem será o campeão da Taça Libertadores deste ano? Pela tradição na competição, acho que o São Paulo.

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