Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

‘Não temos dinheiro para nada’, diz dirigente de beisebol do Brasil

Sem a verba da Lei Piva por ter sido excluído da Olimpíada, seleção estreia no principal torneio da categoria

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

10 de fevereiro de 2013 | 12h07

SÃO PAULO - Os japoneses chegaram por último a Ibiúna, depois dos italianos e dos árabes, mas logo formaram a maior colônia de imigrantes da cidade. Hoje, quem percorre a rodovia Bunjiro Nakao não consegue ignorar a presença nipônica: avista-se uma fábrica de Miojo, plantio de hortaliças e uma extensa propriedade da Yakult. Nela não se cultivam lactobacilos vivos, mas esperanças vivas.  

 

No centro de treinamento de beisebol construído pela multinacional de capital japonês, a seleção brasileira se prepara para disputar pela primeira vez o World Baseball Classic, principal competição de seleções nacionais do esporte, a partir do dia 2 do mês que vem, no Japão.  

 

A classificação inédita foi alcançada em novembro do ano passado, na Cidade do Panamá. O Brasil superou a Colômbia e depois passou pelo Panamá, num sofrido e tenso 1 a 0. Os panamenhos têm história na modalidade. Na Copa do Mundo, competição retirada do calendário, já foram vice-campeões e conseguiram o terceiro lugar duas vezes.

EXCLUSÃO

O beisebol, excluído da programação dos Jogos Olímpicos – sua despedida foi nos Jogos de Pequim, em 2008 – é a enésima prioridade do Comitê Olímpico Brasileiro e do Ministério do Esporte de um país que teme cumprir campanha pífia na Olimpíada que sediará, em 2016.

 

Sem receber verba da Lei Piva, que destina ao esporte olímpico e paralímpico uma porcentagem do dinheiro arrecadado pelas loterias federais, a Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol vive à míngua. “Não temos dinheiro para nada”, desabafa o vice-presidente da entidade, Estevão Sato. “O que temos são jogadores de famílias guerreiras, que enxergam neste esporte um caminho para melhorar de vida.”

 

Graças a esse esforço, o Brasil, que ocupa a 20ª colocação no ranking da IBAF (International Baseball Federation), entrou no Classic, que reúne 16 seleções. O Brasil caiu num grupo difícil, o mesmo do Japão – campeão das duas edições anteriores do Classic –, Cuba (medalha de ouro em três das cinco edições dos Jogos Olímpicos que incluíram o esporte) e China.

 

Sempre que se pergunta a qualquer membro do time quais são as chances brasileiras, o indagado hesita por um segundo, pensa bem e salienta o nível do grupo. O Brasil tem altas chances de ficar em quarto e último lugar na chave. Mas o arremessador Thyago Vieira, de 20 anos, diz que a diferença em relação aos favoritos não o intimida. “Ninguém acreditava que iríamos nos classificar. Tudo o que importa agora é que vamos para cima.”

 

Thyago é um dos “jogadores de famílias guerreiras” mencionados por Sato. Filho de uma empregada doméstica de Tatuí, ele ainda não conseguiu a ascensão social desejada. Tem contrato com o Seattle Mariners, time da Major League Baseball, mas está longe da equipe principal. As franquias da MLB despacham seus atletas mais crus para países com tradição no esporte. O tatuiense disputou a última edição da liga de verão venezuelana.

 

Assim como Thyago, mais 13 brasileiros têm contrato com equipes norte-americanas. Existem outras dezenas em times japoneses – o número exato é desconhecido pela confederação. O brasileiro que chegou mais longe é Yan Gomes, o único a disputar jogos oficiais da MLB, pelo Toronto Blue Jays. Justamente por estar querendo se firmar no Cleveland Indians, sua nova equipe, é possível que prefira cumprir toda a pré-temporada, desfalcando o Brasil.

 

Nem por isso o Brasil se julgará desacreditado. Quem garante é Barry Larkin, técnico da seleção. Membro do Hall da Fama da MLB, Larkin é visto pelos jogadores como um craque na arte de motivar. “O beisebol brasileiro reúne a paixão dos latino-americanos e a disciplina oriental. Adoro treinar este time.”

 

NÚMEROS

7 estados brasileiros têm federações de beisebol reconhecidas: São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Pará, Brasília e Mato Grosso. Outras três estão em formação: Minas Gerais, Espírito Santo e Rio Grande do Sul.

13 jogadores brasileiros têm contrato com equipes da Major League Baseball, mas apenas um, Yan Gomes, disputa jogos oficiais

 

Torneio é iniciativa para que beisebol volte a ser olímpico

O World Baseball Classic, que chega à sua terceira edição em março, faz parte de uma ofensiva da Major League Baseball para demonstrar que o esporte tem o necessário nível de difusão pelo mundo para ser novamente incluído na programação dos Jogos Olímpicos. O beisebol foi preterido pelos dirigentes do Comitê Olímpico Internacional, que decidiram incluir o golfe e o rúgbi.

 

A recondução do beisebol ao status de esporte olímpico é uma bandeira do atual presidente da International Baseball Federation (IBAF), Riccardo Fraccari.

 

A Major League Baseball vai custear as passagens aéreas e a estada das 15 delegações que viajarão ao Japão para o Classic.

 

Os dirigentes da MLB identificam no Brasil um mercado ainda pouco explorado pela modalidade. O beisebol perdeu terreno para outras ligas esportivas norte-americanas, como a NBA e a NFL.

 

Bons jogadores brasileiros ampliariam o interesse de telespectadores em um país ao qual o beisebol chegou há muito tempo. Há registros da prática do esporte no século 19, no local onde hoje se situa o Palestra Itália.

 

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