''Não temos limite''

Daniel Dias, destaque do País, diz que não se deve subestimar poder dos deficientes

O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2008 | 00h00

Daniel Dias tinha 16 anos quando participou de sua primeira aula de natação. No primeiro mergulho, já chamou a atenção dos professores. "Minha namorada (Fernanda Fernandes) contou que estava na piscina na primeira aula de Daniel e nunca se esqueceu porque ele entrou na água e saiu nadando. Ninguém tinha feito aquilo", conta o coordenador de atletismo e basquete em cadeira de rodas da Associação Desportiva do Deficiente (ADD), Eduardo Santarelli. Surgia ali o destaque da Paraolimpíada de Pequim. O pai de Daniel, Paulo Dias, admitiu que jamais tinha pensado no filho como um esportista, até que ouviu uma palestra do fundador da ADD, o americano Steven Dubner, sobre o esporte como ferramenta de inclusão de deficientes. A idéia agradou ao engenheiro, que colocou o filho, nascido em Campinas (SP), para estudar em uma escola comum, em Camanducaia (MG), e procurou nunca impor limites ao filho."Fui falar com ele (Dubner), que recomendou que eu fosse até São Paulo para que o Daniel fosse avaliado", lembra Paulo Dias. Futebol e basquete em cadeira de rodas foram descartados, mas não a natação. Tanto que na primeira tentativa, há quatro anos, Daniel se deu bem na piscina.Nove finais de semana depois, o garoto chegou ao limite do que a instituição poderia oferecer. E o passo seguinte foi buscar um clube. Daniel encontrou em Bragança Paulista (SP), distante 1 hora e meia de ônibus de Camanducaia (MG), o técnico Igor Russi, que lhe ensinou os estilos e o apresentou a Marcio Rojas, que até hoje é seu técnico. "Ele estudava de manhã, almoçava, pegava o ônibus, eu ia buscá-lo e ele treinava com outros meninos que não eram deficientes para depois voltar a Camanducaia", conta Rojas. "Daniel logo se adaptou ao treinamento."Rojas diz que até hoje esta é a principal qualidade do nadador: a dedicação. Para Pequim, por exemplo, Daniel treinou diariamente duas horas, fora as aulas de pilates e o cumprimento à risca as orientações da nutricionista. Resultado: pódio em todas as provas disputadas nos Jogos.Daniel começou tarde como atleta, mas sempre gostou de esportes. Adora futebol. "Sou corintiano e acho que me identifico com aquela coisa da torcida de sempre acreditar", afirma. Assim como na piscina, a deficiência não impõe limites ao jovem, que toca bateria, está na faculdade de educação física (quer estudar mecatrônica), namora, reza, tem blog (www.danieldias.esp.br) e página no Orkut.Dias diz que o filho sempre teve como marca registrada o bom humor. "Ele é parecido comigo, mas tem o temperamento alegre da mãe", afirma. "No Parapan ele participou do sorteio das loterias da Caixa e, em certo momento, o locutor pediu para ele apertar a roleta com a mão. Ele respondeu: ?Que mão?? Foi só risada." Recentemente, Daniel foi comparado a Michael Phelps por causa do desempenho na piscina. Protestou. "Eu sou mais bonito."Mas Daniel e Phelps têm, sim, semelhanças. Entre elas a mensagem que pretendem deixar com o desempenho na piscina. Ao ganhar o oitavo ouro olímpico em Pequim, o americano afirmou que muita gente havia dito que ele não seria capaz do feito. "Estou aqui para provar que nada é impossível." Daniel quer demonstrar que os deficientes podem ser atletas como outros. "A mensagem que quero deixar é que as pessoas não devem impor limites aos deficientes", diz.

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