'NÃO VEJO CRISE DO CAMISA 9 NO BRASIL'

De um lado, a sala de estar da casa no atacante Ricardo Oliveira, em Santana de Parnaíba, na grande São Paulo, tem fotos do jogador como pastor evangélico, função que exerce há oito anos. No outro, estão os troféus de artilheiro, craque e destaque do Campeonato Paulista. Um novo troféu pode chegar no final do ano: o atacante de 35 anos tem dez gols - fez mais um na vitória sobre o Coritiba - e já se isola na artilharia. Nesta entrevista exclusiva ao Estado, o santista conta como concilia a vida de artilheiro e a de pastor e explica a evolução entre o atacante que começou na Portuguesa e o goleador de hoje.

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

10 Agosto 2015 | 02h02

O Santos foi campeão paulista, mas luta para se distanciar da zona do rebaixamento. O que aconteceu?

Não tem como justificar o fato de um time fazer uma campanha como nós fizemos e depois entrar no Campeonato Brasileiro com um desempenho coletivo e individual que não apareceu como antes. No Brasileiro, poderíamos ter vencido o Avaí na estreia. Empatamos. Aí, os resultados não vieram, e o time foi perdendo a confiança. O que gera confiança são as vitórias.

Por que o Santos não vence fora da Vila Belmiro?

Não é questão de falta de qualidade. É questão de atenção, de estar mais ligado. Um time grande não pode depender de vitórias só no nosso campo. Se a gente almeja coisas grandes, temos de ganhar fora para começar a olhar lá para cima.

No começo do ano você assinou um contrato de cinco meses e foi artilheiro, destaque e craque do Campeonato Paulista. Você está indo além do que você imaginava?

Em 2003, saí como vice-campeão da Libertadores e artilheiro da competição junto com o Delgado, do Boca Juniors. Fui artilheiro no Campeonato Paulista, mas ficou aquela tristeza de não ter ganho aquela competição. Voltei com 34 anos, após cinco no mundo árabe. Era até normal a desconfiança, porque o campeonato dos Emirados Árabes não tem nenhuma visibilidade. Eu me dediquei, corri, me preparei e disse que ia mostrar do era capaz. E falei uma frase forte que não foi um desrespeito em relação aos companheiros que estão lá. "Para jogar no meu lugar vai ter de ser melhor do que eu", essa foi a frase que eu falei. Não fiquei só nas palavras, eu fui para o trabalho. Os quatro primeiros jogos foram difíceis. A partir daí, meu desempenho foi muito positivo. Eu dava passes e fazia a movimentação. Depois, comecei a fazer os gols e não parei mais.

A diferença entre os Emirados e o Brasil é realmente muito grande?

Sim, não dá para comparar. Confesso que foi difícil me readaptar ao futebol brasileiro. Aqui, tudo é muito intenso, muito corrido e muito disputado. Eu me preparei para isso e acabei tendo um resultado que não era esperado por muitas pessoas, mas que não foi uma surpresa para mim. Fiquei feliz, porque colhi aquilo que plantei. Não fiquei surpreso com a minha performance. Não esperava ser protagonista de um título. Não esperava e não sabia que isso ia acontecer, mas tinha a confiança que poderia fazer gols e ajudar o time.

Você precisou de quatro jogos para readaptar?

Exatamente. Depois, eu entrei em forma, peguei o ritmo da competição e fui embora.

Você conseguiu essa readaptação em situações adversas fora de campo. No primeiro semestre, o Santos teve problemas sérios com atraso de salários. Como um jogador entra em campo com salários atrasados?

Nunca vi ninguém entrar em campo com salário atrasado e deixar de se dedicar. Nunca vi. O que nos motiva é o prazer de jogar futebol. Quando entramos em campo, pensamos em jogar e fazer gols. As vitórias podem gerar recursos para um clube de futebol. Um clube em evidência atrai investidores e patrocinadores, e a saúde financeira vai se estabilizar. Obviamente, os problemas acontecem fora, com a falta de recursos. Os problemas afetam o clima, o ambiente, mas nosso time foi campeão com salários atrasados. Depois, a diretoria do Santos pagou todo mundo.

Você voltou ao Brasil em um momento de crise do futebol brasileiro em função da campanha na Copa do Mundo. Um dos pontos dessa crise é a figura do camisa 9. Como vê essa crise?

Não vejo essa crise do número 9. Acredito que estamos tendo opções diferentes. Depois da Copa do Mundo, criou-se um monstro sobre o camisa 9. Estão dizendo que um camisa 9, de área, não tem espaço dentro da seleção. A seleção nunca teve uma camisa 9 de área que só soubesse jogar ali dentro. Talvez estejamos buscando um novo talento. O futebol brasileiro sempre revelou grandes jogadores em todas as posições. Não é a crise do camisa 9. É uma opção de buscar uma solução para resolver essa ausência de jogadores diferenciados.

O camisa 9 acaba sendo um bode expiatório para uma crise em todas as posições?

Todas as seleções têm um número 9 como referência. Existem variações. Alguns jogadores se movimentam mais e outros se movimentam menos. Mas todas as seleções e todos os clubes têm um 9 como referência. Não tem como a gente fugir disso.

Você é um jogador diferenciado também fora de campo como líder espiritual. Como conciliar a carreira de jogador de futebol com a vida de pastor?

É difícil conciliar. Não posso me dedicar integralmente à vida religiosa por causa da minha profissão. Ser pastor me dá força e ânimo para suportar a pressão e a cobrança.

Como você se tornou pastor?

A gente não escolhe ser pastor. É um chamamento. Obviamente é preciso um líder espiritual para reconhecer essa característica. Eu me converti em 2000 e me tornei pastor em 2007. Nos Emirados Árabes, fundamos a primeira igreja brasileira na capital, Abu Dabi. É uma igreja missionária que nós mantemos. Foi um marco para mim ter o aval do governo islâmico para abrir essa igreja lá.

Você é um jogador bem-sucedido dentro e fora de campo. O que ainda busca?

Quero dirigir uma igreja, não sei se no Brasil ou nos Emirados Árabes. Isso me chama e eu me preparei. Também é importante investir em pessoas. Eu cresci em uma favela no bairro do Carandiru. A situação era crítica, mas o que aconteceu comigo foi um milagre. No futuro, quero ser pastor integralmente e conciliar essa função com uma obra social fora da igreja, como escolinhas de futebol, distribuição de alimentos e visitar pessoas em situação difícil.

Você tem medo de alguma coisa?

A gente tem sonhos, quer continuar conquistando e fazendo coisas, mas tem a certeza de que é incerto. Nunca vai poder dizer que amanhã vou levantar, trabalhar, treinar e jogar. O medo faz parte de cada um de nós. Não tenho só um, tenho vários. Mas tenho esperança e fé de que amanhã vai ser melhor do que foi hoje.

O que mudou daquele Ricardo da Portuguesa para o Ricardo de hoje?

Mudei muito, mas mudei para melhor. Saí do futebol brasileiro e me adaptei ao espanhol. Aprendi um idioma e conheci uma cultura. Fui para o Campeonato Italiano e consegui a mesma coisa. Fui para o mundo árabe, tive de falar inglês e me adaptar à cultura local. E, aos 35 anos, mostrar que posso competir em alto nível, conseguir me destacar e ser protagonista são coisas que chamam a atenção. Nossa cultura é que o jogador de 35 anos não tem mais o que fazer.

Seu estilo de jogo mudou?

Não. Sempre fui veloz, de correr em direção ao gol, criar espaço e dar passes. A experiência me proporcionou fazer o movimento na hora certa. A gente não precisa correr para o lado em que a jogada está sendo construída. Você espera a hora certa para receber onde não vai ter ninguém.

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