Nas mãos, diamante de US$ 32 milhões

Reportagem do ?Estado? visita a Cidade das Joias

, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

Pobreza e miséria nas ruas das grandes cidades da África do Sul convivem muitas vezes com a opulência de grandes shoppings e de bairros afastados em que sobressaem casarões modernos com extensos jardins e cercas eletrificadas nos muros. No caso de Johannesburgo, o contraste é imenso para quem visita a Cidade das Joias, um complexo de lojas próximo ao Ellis Park Stadium.O local é vigiado com centenas de câmeras e por homens armados com fuzis e metralhadoras. Um minibairro com ruas, restaurantes e a sensação de que se está num quartel-general. A reportagem do Estado visitou a Casa dos Diamantes, um braço do complexo, que abriga 245 companhias de várias partes do mundo. Por três horas, percorreu o prédio, ao lado da Casa do Ouro, e assistiu ao processo final de preparação das pedras extraídas da África do Sul e de países vizinhos, como Namíbia, Angola e Congo.O prédio dos diamantes remete à abertura do seriado Agente 86, sucesso na TV americana na década de 60 e anos depois, no Brasil, no qual o seu protagonista, o ator Don Adams, caminha num corredor que é bloqueado por uma parede de aço a cada trecho percorrido. Como se fosse um bunker. Para chegar ao pavimento da Namakwa Diamonds, foi preciso passar por um detector de metais, duas portas de ferro e dois elevadores que só circulam com a identificação de um cartão magnético.Heno Kruger é sul-africano e diretor da Namakwa. É gentil e fica feliz ao saber que um grupo de brasileiros está na Casa dos Diamantes, mesmo informado, logo no início, de que se trata apenas de uma reportagem.Depois de 30 minutos de conversa, atende ao pedido do fotógrafo e traz para uma sala reservada algumas pedras preciosas que estão à venda, à espera de xeques e outros milionários.A maior das pedras, cor um pouco alaranjada, cabe na palma da mão. "Podem pegar", ele diz. É bonita, simétrica, mas, para leigos, não significa mais que isso. O impacto vem em seguida. "Ela custa 32 milhões de dólares." Kruger mostra uma outra, menor, mais clara. "Essa está avaliada em 12 milhões de dólares." O diretor da Namakwa, diante da reação de espanto dos visitantes, vai mais adiante. "Tirem fotos segurando a pedra perto do rosto, fica melhor", aconselha. "Mas se a pedra cair? Pode danificar uma de suas extremidades, é um risco", devolvemos. Ele responde balançando a cabeça. "Bobagem, vocês não vão deixá-la cair."Em outras salas da Namakwa, Kruger nos mostra centenas de pequenas máquinas e equipamentos que dão formato final aos diamantes. O primeiro passo, recebido o material bruto, é o corte que vai definir, entre outras coisas, a dimensão da pedra. Ali, lâminas tocam o minúsculo brilhante por até 48 horas ininterruptas. O processo segue com várias etapas de polimento sob responsabilidade de um grupo de oito funcionários, cada qual com no mínimo 20 anos de experiência.George Van Der Berg, outro sul-africano de olhos azuis, trabalha na atividade já faz 42 anos. Ele usa moldes que parecem cápsulas de não mais de dois centímetros para definir os diamantes, com centenas de ângulos diferentes. Faz isso com a ajuda de computadores.Heno Kruger mostra outras pedras. "Bem baratas", insinua. "Essas aqui vendemos a 17 mil dólares. Quando chegam nas lojas, o preço de cada uma sobe para 50 mil." A visita chega ao fim numa outra sala, onde clientes famosos deixaram registro. Um deles chegou a doar uma camisa autografada. E assinou seu nome: Pelé.AMBULANTESAinda no centro de Johannesburgo, menos de 5 km de distância da Cidade das Joias, centenas de pessoas vivem da venda de produtos artesanais, num grande camelódromo. Quem quiser ir ao Bruma Market World tem de pagar em torno de R$ 1. Ali, as "joias" são mais em conta e colares e pulseiras com brilho duvidoso custam até R$ 30. Camisas alusivas a Nelson Mandela, toalhas com as cores da bandeira da África do Sul e miniesculturas de girafas, leões e elefantes estão por todos os lados.Não há seguranças nem câmeras e a abordagem é mais direta. Os vendedores puxam "gentilmente" as pessoas pelos braços a fim de apresentar as vantagens de suas mercadorias. Quando o intérprete comenta em zulu (um dos idiomas da África do Sul) que acabamos de vir da Cidade das Joias, o assédio aumenta. Então é hora de ir embora.

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