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Nas veias do meio de campo

Perdemos muito tempo por conta do diagnóstico e percebemos que um dos maiores problemas dos times brasileiros é a falta de ideias, de sangue nas veias do meio de campo. O resultado obtido a qualquer custo e de qualquer jeito, convertido em riqueza durante décadas, hoje é um dos símbolos do nosso atraso técnico.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2015 | 02h06

Os jogos das quartas de final do Paulistinha mostraram que essa tendência está mudando, sobretudo nas equipes de maior orçamento. Até os treinadores estão enfastiados com as ligações diretas, com os chutões, com aquele estilo varzeano consolidado nas pocilgas que insistimos chamar de estádios.

Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo, cada um com seu caráter e estágio de evolução, buscam saídas para o setor e por ele construir seu futebol. A ressalva, obrigatória, é ter bem claro que em decisões de apenas um confronto nem sempre o refinamento técnico funciona como guia e norma do que será apresentado no campo.

Mas não custa cultivar a esperança. O Palmeiras melhorou muito quando Valdivia entrou no segundo tempo. Não vou, agora, discutir as capacidades físicas do jogador chileno, mas a sua importância para a equipe. Oswaldo segue na construção de um grupo forte, com alternativas no centro e nas beiradas do campo.

Com Arouca, Robinho e Valdivia, o treinador abasteceu o Palmeiras de inteligência no último terço do gramado, ampliando alternativas táticas e técnicas. Esse é o caminho, e pode funcionar também com Cleiton Xavier.

Contra um adversário como o Corinthians, mais desenvolvido e confiante, dificilmente o treinador sacará, de início, o volante Gabriel. Uma das possibilidades é jogar com dois atacantes e mais controle no meio de campo, com Valdívia distribuindo a bola e se candidatando para o chute, no triângulo completado por Arouca e Robinho.

Para uma equipe em formação, não há nada demais movimentar suas peças em função de um adversário com sistema de jogo consolidado. Elias, Renato Augusto e Jadson são construtores das transições corintianas, com ótimas infiltrações e responsáveis por muitos gols. Precisam ser marcados e contra-atacados.

No outro clássico semifinal, o Santos chega melhor, conduzido por Lucas Lima e com o meio de campo frequentado por Robinho e Geuvânio. O São Paulo é a incógnita, depende bastante do que vai acontecer contra o Danubio, na Libertadores.

Com Denílson, Souza, Wesley, Ganso e Michel Bastos, melhorou a recomposição defensiva e a transição para o ataque. Pela quantidade de altos e baixos da equipe e por ainda buscar um ponto de ignição e de equilíbrio, o São Paulo de Milton Cruz, e talvez de Alejandro Sabella, é o mais imprevisível do Trio de Ferro.

As semifinais do Paulistinha refletem a fragilidade técnica que pautou o campeonato até agora. Com jogos demais para os grandes e longe de preencher a necessidade dos pequenos, esse modelo eliminará todos.

Desta vez não houve surpresas, como no ano passado. Mas a Ponte Preta merecia mais, da bola e da arbitragem. Depois de 15 sonolentas rodadas, a desclassificação da melhor equipe do interior veio como um raio, efeito do mata-mata manco, de ida sem volta.

O Estadual é assim mesmo, é o palco justo das fórmulas esdrúxulas e mirabolantes, tal qual seus criadores. Pois melhor que isso, só um campeonato por pontos corridos, impraticável para esses torneios.

É possível ser mais criativo e trabalhar de verdade pelos times pequenos, quase todos no corredor da morte do futebol, mas inexplicavelmente apaixonados por seus carrascos, os presidentes das federações.

Apenas Flamengo e Fluminense parecem ter entendido como funciona o sistema. Enquanto sacramentam seu prejuízo, a federação lucra. Nos primeiros quatro meses do ano, o seu clube e a sua paixão trabalham pela sobrevivência de alguns dos donos do futebol. É assim que funciona!

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