Nascar vai sofrer com a falta de patrocínio

Categoria será a mais afetada dos esportes nos EUA

Liz Clarke, O Estadao de S.Paulo

25 de outubro de 2008 | 00h00

Durante décadas, o sucesso das corridas de Stock Car que usam gasolina de alta octanagem, da marca Nascar, esteve ligado ao destino da indústria automotiva dos Estados Unidos. As vitórias da Nascar representaram o reconhecimento da engenhosidade de Detroit. E, por sua vez, as vendas nas concessionárias foram creditadas aos feitos nas corridas. Como dizia a frase usada no marketing: "O que ganha no domingo, vende na segunda." Mas neste momento, as Três Grandes do setor nos EUA, que lutam pela sobrevivência, começaram a reduzir drasticamente seu envolvimento financeiro na Nascar, ameaçando o modelo econômico que favoreceu a popularidade deste esporte. Outras empresas patrocinadoras que contribuíram para transformar as corridas de Stock Car, originalmente um passatempo de simples trabalhadores, na modalidade de corrida de automóveis mais importante do país, também decidiram reduzir seus investimentos em conseqüência das turbulências econômicas. Algumas companhias talvez não renovem seus compromissos - muitos dos quais chegam a mais de US$ 10 milhões (cerca de R$ 23 milhões) - quando os contratos expirarem. "Os EUA tinham uma economia muito vigorosa que permitiu que o esporte crescesse, mas isto mudou consideravelmente nos últimos seis meses", disse Terry Dolan, gerente da Chevy Racing. "E provavelmente afetará de modo dramático a situação deste esporte daqui a 12 meses." Os esportes de todas as modalidades começam a sentir o impacto da crise econômica global. Com o declínio da renovação das assinaturas para a temporada da Liga Americana de Basquete (NBA), o comissário David Stern anunciou cortes do pessoal nas agências da liga. A Liga Americana de Futebol está revendo seu acordo trabalhista com os jogadores com o objetivo de baixar os custos. A arena da NBA em Filadélfia terá outra mudança de nome, porque o detentor dos seus direitos, o Wachovia Bank, foi absorvido pela Wells Fargo. Os esportes individuais e olímpicos, que dependem ainda mais do patrocínio das empresas do setor privado, também sentem o aperto. O Comitê Olímpico dos EUA perdeu seu patrocínio de US$ 1 bilhão da General Motors, depois da Olimpíada de Pequim. Em janeiro, o consagrado torneio Masters de Golfe perdeu, por sua vez, o patrocínio da Cadillac. Mas a Nascar deverá ser mais afetada do que os esportes tradicionais por causa de sua quase total dependência do patrocínio das empresas privadas. Os 43 carros que começam toda corrida não passam de cartazes de propaganda que se movem a 200 milhas por hora, exibindo a publicidade da cerveja Miller, M&Ms, Office Depot - praticamente todos produtos da cesta de bens de consumo americana. As empresas patrocinadoras representam cerca de 80% do orçamento normal de uma equipe da Nascar - aproximadamente quatro vezes a porcentagem de uma equipe da NFL, que aufere a maior parte de sua receita dos lucrativos contratos da liga com a TV e da venda de ingressos. Mas a apenas quatro meses da corrida das 500 Milhas de Daytona, que abre a temporada de 2009, duas das mais respeitadas equipes da Nascar, a Petty Enterprises e a Dale Earnhardt Inc., estão procurando patrocinadores para financiar quatro dos seis carros de corrida que pretendem lançar em conjunto. No início deste ano, para continuar marginalmente competitivo, o sete vezes campeão da Nascar, Richard Petty, vendeu uma participação que lhe permitia controlar a equipe de corrida da família para uma empresa de investimentos, a Boston Ventures. Outras três equipes da Nascar levantaram capital do mesmo modo. "Nada continuará tão empolgante como a Nascar costumava ser", disse Peter DeLorenzo, ex-executivo de publicidade e editor do blog Autoextremist.com, do setor automotivo. "Mas tinha de haver algum tipo de correção." Nenhum esporte teve uma origem tão humilde quanto a Nascar, que nasceu em pistas de terra no Sul, onde os corredores competiam à noite para ver, entre um Buick ou um Chevrolet envenenado, qual seria o mais veloz. Quando o esporte amador conseguiu um público de apreciadores, as empresas construtoras começaram a investir nos carros vencedores e a divulgar suas vitórias em anúncios em jornais a fim de atrair os fãs para as suas concessionárias.

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