Natal de 1980

Tinha eu não os catorze anos que Paulinho da Viola transformou em canção imortal, mas quinze. Corria o mês de dezembro de 1980 e as notícias que desabaram sobre a cabeça daquele jovenzinho que, acreditem, eu já fui, eram terríveis. Mais do que terríveis, representaram uma espécie de perda da inocência, um prenúncio do evento que mudaria a minha vida completamente, pouco mais de dois anos depois: a morte abrupta de meu pai, aos 50 anos. No Natal de 1980, eu conheci a dor de festejar uma data tão calorosa e, ao mesmo tempo, conviver com a insuportável ausência de pessoas a quem devotamos amor ou admiração.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2010 | 00h00

Aquele foi o primeiro Natal sem que dois dos meus maiores ídolos estivessem entre nós: John Lennon e Nelson Rodrigues, ambos desaparecidos no triste mês de dezembro, daquele melancólico ano de 1980.

Pelas mãos de um assassino, no dia 8 de dezembro de 1980, em Nova York, o mundo perdeu não apenas um gênio da música, mas também um agitador político, um provocador cultural, um filósofo de seu tempo.

Como escreveu Beto Guedes, em sua Canção do Novo Mundo: "Quem souber a exata explicação, me diz como pode acontecer, um simples canalha mata um rei em menos de um segundo." John Lennon foi, sim, um rei - ainda que ele achasse, com certa razão, que rei mesmo foi Elvis Presley. E porque, claro, nem John nem Elvis prestaram muita atenção ao que o Rei Pelé fez com a bola nos pés. Pelas mãos do canalha cujo nome me recuso a escrever, pois essa celebridade era exatamente o que ele buscava ao puxar o gatilho, o meu herói da música, o homem que promoveu anos antes a grande campanha do Natal da Paz, pelo o fim da Guerra do Vietnã, foi arrebatado deste mundo. E, em Madureira, tão longe de Nova York, foi difícil passar o Natal sem ele.

Depois de uma vida dura e cheia de tragédias, que incluíram um irmão assassinado, uma filha que nasceu cega, inúmeras desenredos amorosos e acusações de depravação por parte dos moralistas, e de reacionarismo por parte de uma esquerda retrógrada, Nelson Rodrigues morreu no dia 21 de dezembro de 1980 - ironicamente, poucas horas antes de marcar 13 pontos num bolão da Loteria Esportiva feito em conjunto com seus colegas de redação. Se hoje tenho paixão pela crônica esportiva e pela literatura de uma forma geral é porque cresci lendo os endiabrados textos do mestre no Jornal dos Sports e em O Globo. Naquele Natal de 1980, as páginas dos jornais não estampavam qualquer palavra do Sátiro da Aldeia Campista. A crônica esportiva ficou, para sempre, cronicamente conservadora, insuportavelmente informativa, irritantemente recheada de análises táticas e frias estatísticas.

Sua última crônica foi publicada no dia 1.º de dezembro, no dia seguinte à conquista do título carioca pelo seu amado Fluminense. Encerrado o jogo, contrariando ordens médicas, o velho Nelson fez enorme esforço para colocar-se diante da máquina de escrever. "Preciso escrever sobre isso", disse ao filho Nelson, que o acompanhava.

Lentamente, foi tamborilando nas teclas de sua Facit aquele que seria o seu canto do cisne. Entretanto, ao olhar o que aparecia no papel, Nelson Rodrigues Filho percebeu que tudo não passava de um amontoado de letras desconexas. O pai não conseguia mais coordenar o pensamento com as teclas da máquina. Sensível, o filho sugere: "Que tal o senhor ditar o texto para mim?" Assim foi feito e, na primeira segunda-feira de dezembro, eu li a última narrativa épica sobre uma conquista do Tricolor das Laranjeiras. Entretanto, no Natal, a ausência do meu herói da máquina de escrever doeu muito.

Trinta anos depois daquele Natal tão triste, eu vivo momentos de grande felicidade. Tudo parece dar certo para o País, para mim e até para o Fluminense do Nelson. E, entre tanta felicidade, a alegria de constatar que as músicas de John são cada vez mais tocadas, que as peças de Nelson são cada vez mais encenadas e que as vidas de ambos são cada vez mais celebradas. Vamos celebrar também. Feliz Natal!

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