Nem tudo é o que parece

Boleiros

Ugo Giorgetti, ugog@estadao.com.br, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

Estava num bar da Frei Caneca, perto da Paulista, esperando um amigo. Meu amigo estava atrasado. Marcar um horário nesta cidade é apenas uma formalidade. Todos o envolvidos sabem que não vão chegar no horário. Eu, infelizmente, chego. E tenho de esperar. O garçom se aproximou, anotou meu pedido, mas não saiu do lugar. Ao invés disso inclinou-se para mim, falando baixo, disfarçadamente: "Tá vendo aquele cara ali, naquela mesa? Sabe quem é?" Antes que eu pudesse responder, ele revelou o nome do homem e quase pulei da cadeira. Era um antigo craque, um dos grandes, um dos que ocuparam domingos e domingos da minha existência. Alguma coisa, porém, na minha expressão fez com que o garçom acrescentasse: "Pode crer, é ele mesmo. Vem aqui todo dia. Nem parece ele, não é? Mas é. A vida não é brincadeira."Diante de tamanha certeza fixei ainda mais meu olhar no homem. Sim, aquele senhor de aparência extremamente modesta parecia realmente o grande craque. Olhei mais um pouco,sim era ele! Mas que mudança! O tempo tinha executado sobre ele seu meticuloso trabalho de destruição. Tinha caprichado na destruição. Fiquei olhando detidamente para ele e seu olhar encontrou o meu. Sempre que um admirador olha para uma celebridade qualquer, um ator, um jogador de futebol, a celebridade sabe que está sendo reconhecida. Nota-se pelo olhar que alguma coisa o avisa de que está diante de alguém que o admira. A expressão de qualquer uma dessas celebridades muda ao perceber o silencioso reconhecimento. O olhar do antigo craque encontrou o meu sem expressão. Era como se nada visse. Na verdade, seu olhar foi além de mim, perdido sabe Deus onde. Fui ficando amargurado com a imagem daquele homem sentado naquela mesa, sozinho, com um copo de cerveja e um maço de cigarros amassado ao lado. Lembrei das grandes jogadas, de um jogo contra o São Paulo, no Morumbi, quando fez dois gols cobrando faltas, do mesmo lugar. Olhei as roupas. Me pareceram gastas, modestas. Vestia uma dessas camisetas com dizeres no peito, e a que ele usava ostentava nome e endereço de uma Faculdade, dessas tantas que há por aí. Não era um miserável, claro, longe disso. Mas longe, muito longe também, do que eu imaginava para aquele grande craque. Esse descompasso entre o que tinha sido e o que estava diante de mim acabou com o meu humor. Principalmente a expressão ausente me deixou angustiado. Fiquei muito mal, para dizer a verdade. Nesse momento chegou meu amigo e, ao ver meu estado, tive de explicar o acontecido e mostrar o ex-craque em sua mesa solitária.Meu amigo conhecia futebol, tinha visto jogar os grandes que eu tinha visto. Mas nesse momento seu olhar era divertido, quase sorridente. "Meu caro, pare de se preocupar. O cara naquela mesa jamais jogou bola. É o Fraga, boa praça, tranquilo, porteiro do prédio ao lado. Sempre vem tomar uma cervejinha antes de pegar o turno. Você foi vítima do Assis, o garçom, que é uma figura folclórica e conta essa mesma história pra todos os fregueses que não conhece."Gastei todo meu sofrimento com a pessoa errada. Mas por que eu não tinha nem por um momento duvidado do tal Assis? Por que me é tão fácil acreditar na ideia de que craques acabam mal? O Fraga terminou sua cerveja, fez um aceno amigável para o garçom e saiu. Não tinha o andar de um boleiro.

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