Nesta copa, participar já é uma vitória

Seleções de 48 países disputam Campeonato Mundial para pessoas sem teto. Já pisam no [br]campo realizadas

Gabriela Moreira, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

Das peneiras que participaram, essa foi a única que levou em consideração as condições precárias em que seus talentos foram forjados. Além da habilidade com a bola nos pés, oito jovens de 16 a 20 anos têm em comum um passado e um presente de restrições. Moradoras de favelas e periferias do Rio e São Paulo, elas integram a seleção feminina que representa o Brasil a partir de hoje, nas areias de Copacabana, no 8.º Campeonato Mundial de Futebol Social, chamado no exterior de Homeless World Cup, na tradução do termo em inglês para Copa do Mundo de Sem Teto.

Ao todo, 60 seleções masculinas e femininas de 48 países disputam durante uma semana a possibilidade de mostrar ao público que participar deste campeonato já é prova de que venceram seus desafios pessoais.

"Não esqueço o dia em que estávamos jogando no campinho e um carro caiu em cima do meu amigo", conta Juliana Regina, de 16 anos, chamada de Ronaldinha. O automóvel que matou o amigo de infância saiu de uma rodovia que passava acima do campo de terra, na comunidade do Caramujo, em que mora com a mãe, na região metropolitana do Rio. Casa, Ronaldinha tem, mas é menor que os 4 metros quadrados da pequena área do campo em que vai jogar.

A menina, cujo pai foi morto pelo tráfico quando tinha 5 meses, e a mãe vivem com R$ 250 que ganha como diarista. Representa bem o que o diretor da ONG Futebol Social, Guilherme Araújo, organizador do evento no Brasil chama de situação de "vulnerabilidade social". "O conceito de homeless varia em cada país. No Brasil, escolhemos pessoas em condições inadequadas de moradia. Isso inclui favelas, periferias, comunidades indígenas, quilombolas, moradores de rua e assim por diante. Por isso, o nome aqui é futebol social, não que os moradores de rua não sejam o foco do trabalho, mas o leque é mais amplo", explica Araújo.

Aos 20 anos, a craque do time, Tatiane Moraes, tem mais tempo de vida com a bola nos pés do que de convivência com a família. Aos cinco anos, foi levada a um orfanato pela mãe, uma diarista que não tinha condições de criar os quatro irmãos. "Ela achou melhor eu ficar lá do que em casa sem condições. Saí com 17 anos", explica a atacante que aprendeu a arte do futebol com os amigos de orfanato. "Passávamos o dia jogando", conta ela.

Ao sair da instituição, Tatiane foi descoberta por um time suíço que a contratou por dois anos. Após o período, voltou ao Brasil. "Quero continuar no futebol. Quero crescer e poder dar uma casa decente para a minha família. É o que espero com esse campeonato", diz.

Apesar de não serem sem teto, o desejo de "comprar uma boa casa" faz parte dos planos das oito jogadoras brasileiras. "São meninas que tiveram pouquíssima oportunidade na vida. O interessante desta copa é que o mais importante não é o resultado em si, mas dar visibilidade para que elas possam ter chances no esporte e na vida", diz o técnico brasileiro Alexandre Mathias.

AS REGRAS

Quem Participa

O jogador deve atender a pelo menos um dos requisitos: ter sido "homeless"" em algum

momento da vida; tirar seu sustento como catador de papel ou entregador de revista; ser ou ter sido considerado asilado, estar em tratamento para reabilitação de drogas ou álcool. A idade mínima é 16 anos.

Time: três jogadores na linha e um no gol. Quatro reservas.

Duração: 14 minutos no total (7 minutos em cada tempo, com intervalo de 1 minuto)

Cartões: no lugar do cartão amarelo, há o azul, em que o

jogador deve ficar 2 minutos fora do campo. Não há limite para substituições, mas se a equipe tiver algum expulso com cartão vermelho, não pode substitui-lo.

Não Vale: jogadores da linha não podem entrar na pequena área. Não vale gol de goleiro.

Quadra: o campo tem dimensão de 22 metros por 16 metros

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