Never more! Never more!

No último Cartão Verde da TV Cultura participei como convidado. Logo de cara o assunto foi Corinthians e Fluminense. E, claro, outro Corinthians e Fluminense, esse, lendário, disputado em 1976, foi lembrado. No programa, como para meu horror tem acontecido com alarmante frequência ultimamente, eu era o mais velho.Naturalmente foi essa condição execrável que fez com que o dr. Sócrates, ou o Xico Sá talvez, me perguntassem como eu, logo eu!, tinha visto a chamada invasão corintiana. Havia uma dose de ironia na pergunta, acho que do bom doutor, porque ele sabe perfeitamente que não torço para o Timão. Mas sabia também que era impossível que aquela longínqua semana de 1976 tivesse se apagado da minha memória.Tento lembrar das coisas sem recorrer ao Google, o que nesses dias é difícil. A semana começou como qualquer outra, mas logo principiou um movimento ainda confuso, informações truncadas, boatos de que muita gente ia se deslocar para o Rio. Ouvia tudo meio indiferente, provavelmente com um sorriso superior: a fase do Corinthians não era muito boa e o time continuava sua via-crúcis em busca de um Campeonato Paulista que não vinha nunca. As coisas, porém, começaram a me inquietar nos dias seguintes. Havia no ar algo de diferente, um clima anárquico de mobilização geral, como nas vésperas de uma guerra alegre, de uma Cruzada divertida. Comecei a temer pelo pior. Eles iam mesmo para o Maracanã!As novidades não paravam de chegar mesmo no meu círculo de relações imediatas. Julio Xavier, o melhor diretor de comerciais que este país jamais teve, na época pouco adepto de viagens aéreas, se preparava para se lançar de carro Dutra adentro. Guga de Oliveira e Walter Carvalho, claro, iam de avião. Guga, aliás, levando o próprio uísque para o caso de, por alguma razão, não o encontrar no Rio. Enfim, me convenci de que a coisa era grave. Kombis passavam diante mim, rumo à Dutra, vergadas pelo número de passageiros. Os velhos Electras da ponte aérea quase não levantavam voo com o peso. Imagens do Rio principiaram a aparecer nos noticiários da noite, com bandeiras do Corinthians sendo desfraldadas em lugares inimagináveis. Estranhos personagens eram vistos pisando as sagradas areias de Ipanema usando sapatos e meias grossas, olhando espantados para o mar. As graciosas garotas cariocas ouviam, surpresas, gracejos feitos na língua paulista, com nossa particular dificuldade para pronunciar os "esses" finais das palavras. Dormia-se em praças, em bancos, em hotéis baratos, sabe Deus aonde mais. Me pergunto hoje como conseguiram dinheiro para aquilo tudo. Éramos ricos? Não sei, mas 50 mil invadiram o Rio.Vi a partida pela TV e lembro pouco. Chovia muito, metade de um Maracanã muito maior que o atual era corintiana.O Fluminense era chamado de "Máquina Tricolor" e lembro que tinha Pintinho, Caju e Rivellino. Do Corinthians só lembro da torcida ensandecida sob a chuva e de um goleiro, Tobias. O jogo foi decidido nos pênaltis e Tobias parou a "Máquina Tricolor". A Dutra se transformou numa grande festa e, acreditem ou não, tudo terminou em paz. Não lembro de nenhuma briga ou agressão séria, muito menos mortos ou feridos. Outro mundo. Fico pensando se isso poderia acontecer de novo e o corvo de Edgar Allan Poe, pousado nos meus umbrais, repete: Never more! Never more!

Ugo Giorgetti, O Estadao de S.Paulo

24 de maio de 2009 | 00h00

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