Helvio Romero/AE - 18/09/2011
Helvio Romero/AE - 18/09/2011

Neymar coloca em xeque a hegemonia do futebol europeu

Disputa pelo jovem craque do Santos provocou uma corrida entre Real Madrid e Barcelona

JAMIL CHADE, PABLO PEREIRA, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h05

Em meio à pior crise mundial dos últimos 70 anos e com uma dívida de mais de 500 milhões (cerca de R$ 1,278 bilhões), o Real Madrid surpreendeu o mercado ao anunciar em 2009 as contratações milionárias de Kaká e Cristiano Ronaldo. Nos bastidores das transferências que bateram recordes, porém, não estavam cartolas com recursos ou clubes com contas em dia. Foram bancos, fundos e caixas de pensão que possibilitaram a maior transferência da história. Esse modelo de transação ganha força na Europa diante da constatação de empresas e do setor financeiro de que investir em jovens promessas do futebol é uma das aplicações mais rentáveis do momento.

Na época, a contratação de Kaká e de Cristiano Ronaldo somente foi possível graças a linhas de crédito dadas pela Caja Madrid e Grupo Santander. Pelo brasileiro, os bancos pagaram ao Milan 65 milhões (R$ 166,7 milhões). Foram outros 94 milhões (R$ 243 milhões) ao Manchester United por Cristiano Ronaldo.

Segundo fontes do próprio clube, cada um dos dois bancos forneceu um empréstimo de 75 milhões (R$ 191,7 milhões) ao time espanhol. Em garantia, o clube deixou com os bancos a renda obtida com a venda de direitos de transmissão dos jogos. Por ano, esse montante chegaria a 600 milhões (R$ 1,519 bilhões), dinheiro usado pelo clube para pagar os salários e fazer contratações. Desde 2009, essa renda foi também para pagar os bancos, que hoje não se queixam dos lucros que tiveram com a "aplicação".

Não foi a primeira vez que esses bancos emprestaram dinheiro a um grande clube ou investiram no futebol. O Santander já patrocinava a Taça Libertadores, que foi obrigada até mesmo a incluir o nome do banco em sua denominação oficial. Já a Caja Madrid esteve envolvida com o financiamento da compra de Luis Figo e outros craques durante a época dos "Galácticos" também no Real Madrid. No clube de Madri, a própria eleição de cartolas é financiada com dinheiro dos bancos. O La Caixa deu 60 milhões (R$ 153,3 milhões) para a candidatura de Florentino Pérez para voltar a ser presidente do clube.

Investimento no craque. Na busca por Neymar, cartolas da cúpula do Real Madrid confessaram ao Estado que, mais uma vez, serão os bancos que definirão os lances para a transferência do jogador do Santos para a Europa. A disputa que o Real travou com o Barcelona pelo craque fez o preço do jogador subir. Para o time de Madri, perder Neymar para o arquirrival Barcelona seria mais um fracasso da gestão de Pérez, questionada pela falta de títulos.

A situação do Barcelona só é melhor que a do Real dentro das quatro linhas. O time liderado por Lionel Messi dá show e conquista títulos. O caixa, porém, está baixo. O Barça tem uma dívida estimada em 364 milhões (R$ 860,4 milhões). Para arejar os cofres, o clube está vendendo sua camisa para o grupo Qatar Foundation, do Catar.

O envolvimento do sistema financeiro no futebol alavancou o esporte nos últimos dez anos e ainda permitiu transferências milionárias. Usando a imagem de Pelé, até mesmo um fundo foi criado em Luxemburgo permitindo que investidores aplicassem seus recursos em crianças brasileiras que seriam transferidas para a Europa e, no repasse para clubes grandes, gerariam lucros importantes aos investidores.

Mudança de foco. Num primeiro momento, a meta do fundo era a de coletar recursos no valor de US$ 50 milhões (R$ 127,8 milhões). Parte do projeto emperrou. Mas os organizadores prometem que ele será mantido. A ideia era simples: no lugar de investir e apostar na alta do minério de ferro ou de cobalto no mercado futuro, o investidor aplicaria em outro produto brasileiro: os jovens jogadores.

Dados da Universidade de Neuchatel, na Suíça, mostram ainda o tamanho da aposta do mercado financeiro: hoje, são mais de 250 brasileiros atuando apenas na Primeira e Segunda Divisão dos cinco maiores campeonatos europeus. Apesar de a safra do futebol brasileiro estar em época de transição, o País continua sendo o maior exportador.

Crise forte. Mas a crise que eclodiu em 2008 também revelou o tamanho da vulnerabilidade dos clubes ao novo sistema. Segundo dados da Uefa, 51% dos clubes europeus em 2011 estão endividados e 20% estão praticamente nas mãos de fundos e bancos.

Michel Platini, presidente da Uefa, conseguiu aprovar neste ano a exigência de que clubes atestem que gastam apenas o que ganham. Na prática, seria uma tentativa de afastar o futebol do sistema financeiro, o que gerava distorções. Na Inglaterra, 67% da arrecadação de clubes vão diretamente para salários de jogadores.

Na Espanha, pelo menos dez clubes da Primeira e Segunda Divisão já decretaram moratória desde a eclosão da crise financeira, uma vez que não tiveram mais acesso aos recursos dos bancos.

Do "fair play" financeiro proposto por Platini, muitos clubes menores na Europa são contrários. Eles acusam o novo sistema de congelar a atual hierarquia do futebol europeu. Barcelona e Real Madrid, por ter uma renda maior, poderão sempre gastar e contratar novos jogadores. O resultado seria mais títulos, renda e novos gastos.

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