Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

'Neymar dos games', Bruno Nobru construiu império e virou referência para a 'quebrada'

Jovem de 20 anos foi eleito o melhor jogador do mundo de Free Fire em 2019 e realizou o sonho de representar o Corinthians

Ricardo Magatti, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2021 | 05h00

Como a maioria das crianças brasileiras, Bruno “Nobru” Goes não largava a bola e sonhava em ser jogador de futebol. Jogou na base de alguns clubes paulistas, fez testes, mas desistiu de seu sonho. A decisão não poderia ter sido mais acertada. Ainda jovem, Nobru decidiu entrar em outro universo, o dos esportes eletrônicos. Seus colegas notaram que ele levava jeito no Free Fire e o menino decidiu apostar nesse caminho. Anos depois, o jovem nascido e criado no Jardim Novo Oriente, na região do Campo Limpo, periferia de São Paulo, realizou o sonho de representar o Corinthians, tornou-se o maior atleta de Free Fire do mundo, criou sua própria empresa, que fatura alto, acostumou-se a conhecer celebridades, como a cantora Anitta, tem três mansões e passou a ser conhecido como o “Neymar dos Games”, tamanho o sucesso e fama que alcançou nos eSports.

Filho de pais separados e com três irmãos, Nobru jogava Free Fire no celular do pai, Jeferson, sem imaginar que se tornaria referência nesse universo. Passou a levar o jogo a sério aos 18 anos, quando viu que se destacava. Então, convenceu o pai, que na época estava desempregado e precisava do aparelho para entregar currículos, de que o futebol não era pra ele. “Quando virei para o meu pai e falei que não queria mais jogar bola, meu pai brigou comigo e ficamos sem nos falar”, conta.

O menino que sonhava em brilhar nos gramados acabou fazendo sucesso na internet, especificamente nos esportes eletrônicos. Foi pioneiro ao participar da primeira equipe de Free Fire pertencente a um clube de futebol, o Corinthians, o seu time de coração, virou um dos maiores streamers da modalidade no Brasil, ostenta mais de 30 milhões de seguidores em suas redes sociais e fundou ao lado do amigo Lúcio “Cerol” dos Santos o Fluxo, organização de eSports que visa dar oportunidades para outros pro players, como são chamados os atletas de esportes eletrônicos.

“Sou bem maior do que imaginei. Não imaginava esse sucesso, mas estava preparado pra isso. Se eu tivesse sido jogador de futebol poderia ter sido bom, mas não o quanto sou hoje”, reconhece Nobru. O Fluxo, diz ele, nasceu da necessidade de haver um time de eSports que representasse a comunidade, ou a “quebrada”, como define.  “O Free Fire é para todas as classes porque não requer um computador. Uniu todas as classes sociais possíveis. Eu era um moleque de quebrada, jogava com um moleque rico do Morumbi e a gente se divertia da mesma forma”, observa.

A reportagem do Estadão conversou com o jovem de 20 anos em sua mansão localizada em um condomínio de luxo em Arujá, na Grande São Paulo, e conheceu parte da rotina do gamer, eleito o melhor jogador do mundo de Free Fire em 2019, ano em que foi campeão da Free Fire Pro League e do Mundial da modalidade pelo Corinthians. O sonho de representar o time do coração foi realizado, ainda que não nos gramados. “Fizemos parte do primeiro time do Corinthians e de clubes de futebol, no geral. Fomos pioneiros. Abrimos portas para muita gente, inclusive empresas, que tinham uma visão errada dos eSports. Na cabeça de algumas pessoas era perda de tempo, somente um jogo. Mas é muito mais que isso. Hoje em dia não tem mais essa incerteza e esse preconceito com os jogos eletrônicos. Tem muito investimento”, opina o hoje ex-atleta corintiano. 

Como faz lives até tarde, o jovem não costuma acordar cedo. Ele treina todos os dias, diz ter uma alimentação equilibrada, pratica exercícios físicos e conta com uma estrutura semelhante a de um atleta de futebol famoso. Tem técnico, um assessor pessoal, chef de cozinha, cabeleireiro, entre outros 60 funcionários que trabalham para ele e o Fluxo. 

A organização possui três casas no condomínio em Arujá. Numa ficam os atletas de Free Fire mobile, em outra os jogadores emuladores e na terceira os influenciadores digitais. O imóvel onde Nobru mora dispõe de academia, campo society de futebol, piscina, churrasqueira e até uma barbearia. Tudo para o jogador se concentrar somente em seu trabalho.

“Chegamos num ponto em que tem de ter uma reunião mensal para apresentar todas as pessoas que trabalham aqui. E a tendência é crescer mais”, diz ele, entusiasmado com o que construiu. Nos momentos de lazer, Nobru, que é evangélico, não bebe nem fuma. “Ele é reservado e não gosta de polêmicas. É muito profissional”, descreve o tio, Paulo Sérgio Cayama, que é assessor pessoal de Nobru e também seu personal stylist. Serginho, como é conhecido, era vendedor de loja quando recebeu o convite para trabalhar com o sobrinho famoso que, segundo o tio, não se incomoda com o ônus da fama, como as críticas. “Ele lida muito bem com o ódio nas redes sociais. Não fica pensando nisso. É muito cauteloso pra tudo e não gosta de se expor”, aponta.

“Ele tem a cabeça de gente mais velha e alma empreendedora. Parece que nasceu pra isso”, complementa Mariana Sales, gerente de projetos do Fluxo. Ela é mais uma que faz parte do estafe da estrela do Free Fire. “Às vezes fico em choque. Não parece ser um menino de 20 anos”, endossa Sérgio.

Para Nobru, o apego à sua origem e a família ajudaram a forjar seu caráter. “Eu tinha tudo para dar errado. Cresci em quebrada, tive o tráfico, o crime ao meu redor. Poderia ter feito coisas erradas, mas tive uma família que soube me aconselhar e por isso não me abalei quando a fama chegou. Tive uma boa cabeça para administrar isso”, explica. Seu pai, Jeferson, também virou streamer famoso, na esteira do sucesso do filho. “Ele até já ultrapassou o pai do Neymar em número de seguidores”, diz Nobru.

Popularidade

Nobru também produz conteúdo. Ele faz lives na Twitch, plataforma em que soma quase 3 milhões de seguidores, e no Youtube, onde conta com 12 milhões de inscritos e mais de 736 milhões de visualizações em seus vídeos. Além do desempenho no Free Fire, a popularidade, ele considera, é fruto de sua espontaneidade.

“O pessoal se identificou com o meu jeito, com meu carisma, mesmo que não acompanhassem e jogassem Free Fire. Elas veem um moleque humilde, engraçado”, avalia. O sucesso lhe permitiu conhecer celebridades, como o DJ Alok, o craque Ronaldinho Gaúcho e a cantora Anitta, de quem virou amigo. Os dois fizeram uma live juntos recentemente. “Mandei uma mensagem pra ela no Instagram e ela respondeu, foi muito simpática. Interagimos bastante e fizemos uma live que mais bombou muito. Foram 400 mil pessoas nos assistindo simultaneamente só na minha live”, relata.

Falta ainda conhecer Neymar, seu ídolo e que inspira a alcunha que recebeu pela fama no Free Fire. “Eu sou fã do Neymar, até tentei forçar algo, mas acho que ele já me conhece”, comenta o gamer. Sua voz e gestos se assemelham aos do craque da seleção brasileira.

O jovem não revela quanto fatura mensalmente com sua empresa, suas lives, prêmios e contratos de publicidade. Mas é certo que o valor é muito alto. “É uma coisa comparada a jogador de futebol no auge”, compara. “O que minha família quiser eu consigo dar pra eles hoje. Já dei carro pro meu pai, pra minha mãe, uma casa pra minha avó na praia”, acrescenta o jovem empresário. Ele é é embaixador de oito das 12 marcas que patrocinam o Fluxo, como Casas Bahia e TikTok. 

É possível ver essas marcas estampadas no quarto do atleta, em suas roupas e equipamentos. Mais perto da cama fica a coleção de ursinhos que ganha dos fãs, que o acompanham fielmente. “Se o jogo acabar hoje eu posso migrar para outros jogos que meus fãs vão continuar me acompanhando. Tive esse potencial de fidelizar meus fãs”.

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