'Neymar é amável, não um monstro'

Mãe diz ter se chocado com atitude desrespeitosa do astro contra Dorival Júnior, mas reclama de rótulos dados a ele. Seu desafio é manter o garoto na linha

Valéria Zukeran, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 00h00

De forma silenciosa e longe dos holofotes, Nadine da Silva Santos tem desafio diário: evitar que um ambiente repleto de tentações, bajulações e intrigas transforme seu filho e tire dele o que há de melhor na essência, segundo ela: simplicidade e alegria. Palavras, exemplos e orações são o apoio dessa ex-professora para manter nos eixos a maior revelação do futebol brasileiro dos últimos anos: o atacante Neymar.

As últimas semanas foram de "tempestade" para Nadine. Das arquibancadas da Vila Belmiro, ela viu o filho ofender o técnico Dorival Júnior e o capitão do Santos, Edu Dracena, ao fim da partida contra o Atlético-GO (vitória por 4 a 2), em 15 de setembro. A surpresa foi tão grande como o constrangimento. "Fiquei triste ao ver aquilo. Fui para casa. De lá liguei para meu marido (também Neymar) e disse que assim que ele e o Neymar chegassem em casa precisaríamos conversar", declarou ao Estado.

Não demorou para que o trio estivesse reunido. "Quando meu filho chegou, vi que já estava muito arrependido." O remorso de Neymar, no entanto, não impediu Nadine de um desabafo. "Disse para ele: "Esse não é o meu filho. Quero o meu filho de volta". E chorei." Neymar, comovido, chorou também. Sabia que havia errado, mas entendeu, enfim, a gravidade de sua atitude. A mãe conta que o filho reconheceu o erro e se desculpou. "Eu o abracei, beijei e nós oramos."

Após o momento de perdão e afeto familiar, Nadine conta que ficou decidido de comum acordo a necessidade de reparar o que foi feito. "Combinamos que Neymar pediria desculpas." De fato, foi o que fez o jogador. Do episódio, ficou apenas uma mágoa: das declarações de René Simões (técnico do Atlético-GO, adversário daquele dia) de que, se algo não fosse feito para orientar Neymar, um monstro seria criado. "Acho que ele (René) poderia ter usado uma outra palavra para alertar. Meu filho não é um monstro."

Nadine não hesita ao defender o filho. "Se fosse escolher uma palavra para definir o Neymar, "amável" seria a ideal." A mãe do atacante santista diz que na infância o menino era obediente e jamais deu trabalho. "Na única vez que fui chamada na escola, porque ele precisava ser liberado mais cedo para um jogo de futebol, a professora disse que, se ele fosse bom de bola como nos estudos, seria um excelente jogador."

Paixão. A única coisa que foi preciso administrar desde os primeiros passos de Neymar foi sua paixão pela bola. Nadine lembra o momento no qual descobriu que o futebol seria o destino do filho. "Neymar tinha dois anos e um dia o levei à feira. Falei a ele que segurasse na perna da mamãe por um instante enquanto eu comprava um produto. De repente, ele se desgrudou e ficou de lá para cá até que parou em uma banca. Pegou uma pequena bola de plástico amarela e não se desgrudou mais dela."

Nadine lembra que aquela foi a primeira de muitas bolas. "Quando ele tinha 4, 5 anos, não adiantava: você poderia comprar qualquer brinquedo para ele, mas tinha de levar uma junto." O tempo passou e, quando a mãe se deu conta, havia uma trave na cozinha do apartamento e 54 bolas distribuídas pelos cômodos. "Ele quebrou tudo, menos a TV. Isso quando a bola não saía pela janela. A gente tinha medo que caísse na cabeça de alguém." Mais tarde, a paixão pela bola se dividiu com a por uniformes de futebol. "Ele tinha vários."

Generosidade. Egoísmo e truculência nunca foram características do garoto, garante. "Tinha uns 12 anos e ganhava roupas (por seu talento no futebol) e dava aos amigos que não tinham condições, mesmo que fosse de marca. Uma vez, foi a uma loja com dois amigos e falou para o dono: "Sabe aqueles brinquedos que você disse que ia me dar? Então, pode dar para eles..." Meu filho é assim."

É essa a essência que Nadine luta para preservar contra falsos amigos, bajuladores, mulheres interesseiras entre outros tipos que tentam se aproximar de Neymar. Ela sabe que não poderá proteger o filho do mundo que está se abrindo diante dele, só torcer para que tudo o que ensinou dê frutos. "Tenho fé e peço a Deus que ele tenha sabedoria. Que saiba escolher as pessoas que ficarão ao lado dele."

DESABAFO

NADINE SILVA SANTOS

Mãe de Neymar

"Se fosse escolher uma palavra para definir o Neymar, amável seria a ideal"

"Disse para ele(Neymar): "Esse não é o meu filho. Quero o meu filho de volta".

E chorei"

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