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Antero Greco
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Neymar e o papel do herói

O mito do herói, e o papel dele na sociedade, há muito é estudado por historiadores, sociólogos, psicanalistas, críticos literários e outros especialistas das mais diversas áreas do saber. Como sou apenas jornalista metido a palpiteiro no esporte, nem me arrisco a entrar em explicações requintadas a respeito do tema, pois não tenho calibre intelectual para tanto. Provavelmente sairiam besteiras a ofender ouvidos cultos e bem preparados. Vou, portanto, no popular.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2013 | 02h06

A vida inteira, desde os clássicos do século disputados com bola Pelé (plástico resistente) no meio da rua, na General Flores, a gente entendia como herói no futebol o cara bom de bola, craque do time, aquele que dibrava melhor e fazia gol de tudo quanto é jeito. Em geral, não ia bem na escola, era meio mascarado, já jogava na várzea do Bom Retiro, fumava escondido e se metia com as meninas. Era invejado pela molecada. Um mito!

A mesma esperança, com a devida responsabilidade, sempre foi depositada no astro de uma equipe profissional. Tem sido assim ao longo do tempo. Mudou muita coisa no esporte, mas se manteve inalterada a função do regente, do melhor da turma, com o que isso implica de bom e ruim. Messi não é idolatrado por acaso no Barcelona de hoje, assim como havia motivo para Romário ter carta branca na seleção de 1994 ou Maradona receber aval para treinar quando quisesse no Napoli. As regalias contam-se aos milhares e são proporcionais à importância de cada um para o sucesso coletivo. Em igual proporção, existem as cobranças.

Na seleção é Neymar quem assumiu o papel de destaque, mesmo involuntariamente. Na falta de maiores referências, ou de líderes com quem dividir holofotes e pressão, o moço com curta carreira e pouca idade carrega o estandarte de salvador da pátria. Não adianta ninguém da comissão técnica afirmar o contrário, nem vir com papo de que todos são iguais, porque na prática empurramos pra cima dele o ônus de garantir desempenho notável do time, agora e sobretudo na Copa do Mundo.

Se Neymar não passasse de coadjuvante - daqueles que a gente esquece que faz parte do elenco -, não seria tão elogiado ou espinafrado, na mídia, em campo e nas redes sociais. Não provocaria histeria nas tietes nem ficaria na mira de objetivas e câmeras de televisão. Nem de longe teria até a sombra seguida por repórteres daqui e de alhures, sequer o procurariam para entrevistas. Muito cedo, se viu obrigado a conviver com fama, fortuna e vigilância. Tirou proveito disso, com um preço: tudo o que faz tem repercussão.

Neymar já sente os efeitos desse amadurecimento acelerado. Não é de agora que as entrevistas têm menos espontaneidade e alegria. A irreverência dá lugar a discurso sucinto ou dentro do padrão habitual dos boleiros - ou seja, recheado de lugares-comuns e vazio de conteúdo, quando não de impaciência. Como na coletiva de ontem.

O Neymar que apareceu diante dos jornalistas se mostrou comedido e aborrecido. Isso ficou claro ao comentar que não sabe o que se espera dele, pois acha que encontram falhas se corre muito, se corre pouco, se dá um drible a mais ou a menos, se faz gols ou se amarga jejum. Essa postura cabe em atleta rodado, com diversas marcas de chuteiras nas canelas, com currículo de vitórias e decepções. Não em um jovem de 21 anos, cheio de vida e com saudável dose de inconsequência.

Estaríamos no caminho certo ao decretarmos Neymar como o guia da seleção no caminho do hexa em 2014? Não seria exigir demais dele? Vale a pena corres o risco - ou não existe alternativa? Neymar sisudo significará Neymar criativo e competente? Será nosso herói por determinação do destino? Vai concentrar as glórias nacionais ou pagará o pato, em caso de decepção?

A amostra virá a partir de amanhã, no jogo com o Japão, na abertura da Copa das Confederações. O torneio será teste para Felipão e pupilos, para organizadores, torcida, imprensa. Que o fardo seja leve para Neymar.

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