Neymar sem limite

Pressionado pela péssima classificação do time, Muricy Ramalho fechou os olhos, cruzou os dedos e mandou o garoto para o campo. Neymar jogou 10 partidas nos últimos 30 dias, oito pela seleção e duas pelo Santos. O clássico foi bom, efervescente e polêmico, se é que existe polêmica no segundo gol marcado por André, o da virada, uma sucessão de impedimentos não enxergados pelo assistente Emerson Augusto de Carvalho.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2012 | 03h02

Com Patito, Ganso e André, naturalmente o Santos estrearia no Brasileirão. O problema agora é a agenda. Neymar jogou a terceira partida em cinco dias. O roteiro de viagem não poderia ser mais abrangente: começou na quarta-feira, em Estocolmo, na Suécia, teve escala em Florianópolis, na quinta, e terminou ontem em Santos.

A imagem de super-herói contribui para formar o mito indestrutível e aumentar a fila de patrocinadores. A médio prazo, porém, trabalha contra a carreira da maior esperança brasileira no Mundial de 2014. Até um menino diferenciado como ele corre o risco de quebrar pelo excesso de compromissos.

Nas partidas mais importantes da temporada, a decisão dos Jogos Olímpicos e as semifinais da Taça Libertadores contra o Corinthians, a estrela pop do futebol brasileiro não brilhou. Os dissabores vieram justamente em confrontos impossíveis de serem recuperados durante a temporada. Era lá, naquele dia, naquela hora.

Deixar Neymar fora do time parece um absurdo tão grande quanto escalá-lo sem dó. Mas sempre existe o risco de lesão. O futebol também apresenta suas faturas. A dramática gestão de clubes, de federações e da CBF continua assombrando o sucesso esportivo e comercial. É inacreditável ver um campeonato com o potencial do Brasileirão ignorar as datas determinadas pela Fifa para as seleções.

Os problemas estruturais se acumulam. A gestão incompetente é a matéria-prima de quase todos os fracassos. E ajuda a manter o Brasil no segundo escalão dos Jogos Olímpicos. No Mundial dificilmente será diferente.

A piada do ano foi o consultor norte-americano Steve Roush, ex-diretor de alta performance do Comitê Olímpico dos Estados Unidos. Contratado pelo COB para bolar estratégias a fim de melhorar o rendimento do País nos Jogos, concluiu que os dirigentes constituem o grande entrave ao desenvolvimento esportivo brasileiro.

Até o futebol já passou por esse vexame. Em 2003, um estudo da Fundação Getúlio Vargas listou problemas e apontou medidas que deveriam ser tomadas para melhorar a gestão ludopédica. Incrível como dirigentes gastam dinheiro para produzir relatórios polidos e óbvios sobre a própria incompetência.

E pensar que Neymar corre o risco de levar a culpa sozinho pelo fracasso da seleção brasileira em 2014. Hoje, infelizmente, parece o mais provável de acontecer. Os defeitos, mesmo se corrigidos agora, dificilmente terão interferência na Copa. A sorte é que ainda temos alguns bons clássicos.

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