Jamie Squire/Getty Images/AFP
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NFL começou na data habitual e mudanças durante a pandemia tornaram isso possível nos EUA

Temporada teve início na noite de quinta-feira, com uma vitória do atual campeão Kansas City Chiefs sobre o Houston Texans; há uma série de situações implementadas por causa da covid-19

Ben Shpigel, The New York Times - Life/Style

11 de setembro de 2020 | 08h07

A pandemia não conseguiu deter a NFL, liga de futebol americano profissional dos Estados Unidos. Mesmo com a alta nas transmissões e o fechamento das instalações dos times, com a fase de treinamento reestruturada e a pré-temporada esquecida, com vestiários adaptados para limitar a disseminação do coronavírus, a liga começou na data prometida, com a vitória do Kansas City Chiefs, atuais campeões, sobre o Houston Texans por 34 a 20, no Arrowhead Stadium.

Ainda não sabemos se a temporada terminará na data marcada, em Tampa, Flórida, no dia 7 de fevereiro, com a realização do Super Bowl LV, ou se será interrompida, seja por uma série de resultados positivos para o vírus ou por um boicote dos jogadores em defesa da justiça social. A resposta depende muito da disciplina individual de jogadores e técnicos, dos caprichos de um flagelo viral e do poder exercido pelos atletas, que passaram a usá-lo como nunca antes.

O esporte ainda será disputado em um campo de 110m por 50m, e a bola continua feita de couro bovino, mas muitos detalhes de como o futebol americano será jogado nessa temporada vão parecer estranhos, deixando o público um pouco desorientado. Eis uma amostra das novidades.

Os jogadores farão o teste para detectar o coronavírus

Aproveitando-se do estimulante sucesso da temporada de treino, quando testes realizados diariamente confirmaram a disciplina de jogadores e comissões técnicas no respeito aos protocolos, a NFL e a associação dos jogadores concordaram em fazer testes nos jogadores e nos funcionários essenciais todos os dias da semana, com exceção dos dias de jogo. O teste final deve ser feito na véspera do jogo e, se o resultado for inconclusivo, o jogador será submetido a testes adicionais. A participação será permitida desde que o resultado seja negativo duas horas antes do início da partida.

Na mais recente rodada de testes realizada pela liga, entre 30 de agosto e 5 de setembro, mais de 44.000 testes foram distribuídos a 8.349 jogadores e funcionários dos times. Foram confirmados apenas oito casos positivos - um deles entre os jogadores.

Mas o desafio agora será preservar um ambiente seguro e observar a mesma vigilância na redução à exposição ao risco quando as partidas começarem, com os times viajando e, com isso, aumentando as situações de potencial contato. Aqueles que tiverem teste positivo serão isolados e impedidos de visitar as instalações do time, sendo vetado também o contato com jogadores e funcionários.

"Para nós, o mais importante é não relaxar", disse aos repórteres o comissário Roger Goodell em conference call na semana passada. “Estamos lidando com muitas incertezas. Temos que nos adaptar às recomendações da comunidade médica. Pensaremos em mudanças para o regime de testes conforme a temporada progredir. Seguiremos alertas, flexíveis e dispostos a nos adaptar.”

Os times poderão substituir jogadores que ficarem infectados?

Levando em consideração a possibilidade de os jogadores contraírem o vírus, a NFL fez várias concessões em se tratando da composição dis times. O número de atletas ativos na data da partida foi ampliado de 53 para 55, com as duas vagas emprestadas do time B - regra que deve ser manipulada, como já aconteceu nas mãos do técnico Bill Belichick (New England Patriots), mestre da brecha no regulamento, que optou por não manter um kicker no time oficial simplesmente porque pode trazer o kicker para o time B e promovê-lo antes da partida de domingo.

A liga criou uma lista de reservas à parte para os jogadores que testarem positivo ou entrarem em contato com uma pessoa contaminada. O número de atletas dos times B (unidade auxiliar formada geralmente por jogadores mais jovens) também aumentou de 12 para 16, com seis vagas reservadas para veteranos.

Ainda assim, os times se preparam para situações de todo o tipo. Se um surto for detectado no quarto do quarterback dos Philadelphia Eagles, eles ficarão felizes de terem incluído no time B o veterano Josh McCown, 41 anos, que participa de reuniões virtuais mas segue vivendo no Texas.

Jogadores e técnicos terão de usar máscaras?

Todos os técnicos e o pessoal das comissões técnicas terão que usar máscaras ou escudos de proteção facial durante os jogos, enquanto “recomenda-se enfaticamente“ que os jogadores que não estiverem em campo também as usem. Todos os jogadores em Buffalo e em San Francisco devem usá-las, de acordo com a regulamentação local e estadual. Na hora de jogar a moeda, teremos apenas um jogador (mascarado) de cada time.

Como serão os bastidores?

Na maioria dos estádios, a experiência será reduzida ao essencial: dois times jogando futebol americano. Apenas seis times aceitarão torcedores na primeira semana, com lotação reduzida. Para evitar silêncios constrangedores, os times poderão usar o barulho de plateias “enlatadas”, registradas no próprio estádio, reproduzido pelo sistemas de som a uma altura de 70 decibéis - o volume de uma conversa normal.

Os bastidores em si, habitualmente lotados de assessores de todo o tipo, darão uma impressão mais desoladora, sem líderes de torcida, nem mascotes ou repórteres. A proibição se estende à pirotecnia que antecede os jogos, com apresentações do hino nacional ao vivo vetadas nos estádios.

Como a liga vai lidar com os protestos contra a desigualdade racial?

A NFL é formada principalmente por jogadores negros, mas há também alguns negros entre os técnicos, proprietários e cartolas. Durante anos, a liga não deu ouvidos às preocupações dos negros que fazem parte dela - como reconheceu Goodell no início de junho, após a morte de George Floyd sob custódia policial.

A instabilidade social que afeta o país também chegou à NFL, com jogadores, técnicos e proprietários encontrando uma forma de protestar contra o racismo e a violência policial. Depois do episódio em que policiais atiraram contra Jacob Blake em Kenosha, Wisconsin, muitos times cancelaram os treinos, e certamente a luta pela igualdade racial deve continuar durante o andamento da temporada.

Alguns jogadores negros se ajoelharam durante o hino nacional e devem continuar a fazê-lo, movimento iniciado por Colin Kaepernick para chamar atenção para a injustiça racial. De acordo com o Cincinnati Enquirer, os Cincinnati Bengals pensam em ajoelhar todos ou em permanecer no vestiário durante a execução do hino. Alguns jogadores dos Dallas Cowboys, incluindo o running back Ezekiel Elliott, também devem se ajoelhar, contrariando o desejo do proprietário do time, Jerry Jones.

Entre os jogadores que declararam sua intenção de se ajoelhar estão o quarterback Kyler Murray (Arizona Cardinals) e o running back Alvin Kamara (New Orleans Saints), ambos negros. O quarterback Baker Mayfield (Cleveland Browns) e o técnico Bill O’Brien (Houston Texans), brancos, estão entre os que disseram que vão participar do protesto.

Embora nada tenha sido anunciado, também é possível que os jogadores optem por fazer uma semana de paralisação (ou mais) em solidariedade aos atletas de outras ligas esportivas profissionais, como a NBA (basquete), a WNBA (basquete feminino) e a Major League Baseball, que abandonaram partidas em agosto como forma de protesto pela justiça social. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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