John G. Mabanglo/ EFE
John G. Mabanglo/ EFE

NFL divide opiniões ao decidir não suspender atletas que testarem positivo para maconha

Acordo entre a organização do futebol americano e o sindicato dos jogadores apresenta muitas mudanças, mas essa é a que mais causa polêmica

Ken Belson, New York Times

15 de abril de 2020 | 07h54

O acordo trabalhista de 10 anos firmado entre a NFL e o sindicato dos jogadores e ratificado em 15 de março está repleto de mudanças graduais, mais especialmente o aumento de um ponto porcentual no compartilhamento das receitas da liga que os jogadores passarão a receber. Uma das maiores revisões do acordo, contudo, é uma mudança à qual a liga vinha resistindo há muito tempo: flexibilizar as regras quanto ao uso de maconha pelos jogadores.

Com base no novo acordo coletivo, os jogadores que testarem positivo para a maconha não mais serão suspensos. O teste será limitado nas primeiras duas semanas de treinamento em vez de ser realizado de abril a agosto e o limite para a quantidade de tetrahidrocanabinol ou THC, o componente psicoativo da maconha necessário para desencadear um teste positivo será elevado quatro vezes.

Ao adotar essas mudanças, a NFL, uma liga não conhecida por posições liberais, se equipara e em alguns aspectos vai além da mais importante liga de beisebol, a NBA, e outras ligas que já flexibilizaram suas regras, aceitando que que a maconha se tornou mais comum em muitas partes do país.

“Há um sentimento generalizado de que os fãs não se preocupam com essa questão, de modo que é possível parecer progressista”, disse Paul Haagen, codiretor do Center for Sports Law and Policy, na Duke University.

Os critérios mais tolerantes da NFL diferem em muito dos adotados no passado. Mas embora os jogadores não sejam suspensos por causa de testes positivos, eles poderão ser multados com o salário de algumas semanas, dependendo do número de testes positivos. Os testes dados positivos pela primeira vez, como antes, significam que o jogador será enviado para um programa de tratamento ordenado pela liga. Os jogadores que se recusarem a um teste ou um tratamento médico podem ser suspensos por três jogos depois de uma quarta violação, com penalidades cada vez mais graves para futuras violações.

Jogadores e ex-atletas há muito tempo têm insistido em restrições mais flexíveis no caso da maconha, que afirmam ser um analgésico menos viciante do que remédios prescritos, e um número crescente de proprietários de clubes considera as regras um estorvo poque as suspensões mantêm alguns dos seus melhores jogadores fora do campo.

Há anos, a NFL tem resistido a flexibilizar suas regras no caso para evitar entrar em conflito com leis federais e estaduais. Mas à medida que mais estados vêm aprovando o uso da maconha para fins médicos ou recreacionais, a liga percebeu que estava adotando uma política que, em alguns casos, é mais punitiva do que leis locais. Em 11 estados americanos, incluindo sete com franquias da NFL, a droga é legal para qualquer uso. E 31 estados permitem seu uso por razões médicas. O Green Bay Packers e o Tennessee Titans jogam em estados onde a maconha é totalmente ilegal.

A NFL e a NFL Players Association continuam a estudar as supostas qualidades aditivas e de cura da maconha. Os jogadores insistiam numa política mais flexível com relação à maconha por causa das muitas pesquisas que detalham os riscos de drogas alternativas, incluindo os índices de dependência entre usuários de opioides e os danos internos irreversíveis que são causados por opiáceos e drogas anti-inflamatórias não esteroides como Toradol, há muito tempo usadas para tratar os jogadores da NFL.

“As análises da Liga incluíram inúmeras questões, incluindo a legalidade, mas mais importante sempre foram os avisos e recomendações de médicos e clínicos profissionais”, afirmou Brian McCarthy, porta-voz da Liga.

Não está claro qual o porcentual de jogadores que usa maconha. Há anos, jogadores na ativa e ex-atletas estimam que 50% a 90% dos atletas usam a droga. Ricky Williams e Roob Gronkowski já falaram abertamente sobre os benefícios da maconha e do canabidiol. Mas foi somente em 2016 que um jogador, Eugene Monroe, atacante do Baltimore Ravens, insistiu junto à Liga para deixar de testar os jogadores quanto ao uso da maconha para que ele e outros pudessem tratar dores crônicas.

Hoje fora da liga, Monroe disse que a NFL e o sindicato não foram longe o bastante no caso do novo acordo. “Por que ainda realizar testes? Não entendo. Basta abandonar isto e fazer a coisa certa, deixando para os jogadores a escolha. Não é nenhum segredo que os jogadores fumam maconha”.

Alguns ex-jogadores alertam que regras mais flexíveis podem levar a um salto no abuso da droga. Randy Grimes, que jogou 10 temporadas no Tampa Bay Buccaneers e agora trabalha como conselheiro sobre abuso de substâncias depois de uma longa batalha contra a dependência de opioides, disse que a NFL precisa fazer mais para resolver os problemas de doenças mentais que as drogas disfarçam e amplificam.

“A maconha hoje é incrivelmente manipulada e potente e problemas vão ocorrer. Estou num setor que vê o perigo de substâncias que alteram o humor e a maconha é isto”.

A tendência no esporte profissional, contudo, é reduzir as penalidades. Em dezembro a Major League Baseball retirou a maconha da sua lista de substâncias proibidas e agora vai no mesmo sentido no caso do álcool; os jogadores não são aleatoriamente testados salvo se estiverem num programa de tratamento. A Liga de Hóquei dos EUA (National Hockey League) ainda realiza testes para a maconha, mas não existe punição no caso de um resultado positivo. Jogadores com um nível perigosamente alto de THC no seu sistema são enviados para o programa de assistência ao jogador para avaliação.

No caso da NBA, os jogadores devem se submeter a quatro testes aleatórios no caso da maconha durante a temporada regular. Depois de um primeiro teste positivo o jogador precisa aderir a um programa de tratamento. Um segundo teste positivo resulta numa multa de US$ 25.000 e um terceiro leva a uma suspensão por cinco jogos./Tradução de Terezinha Martino

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