Nhenhenhém

Não entendi as recentes manifestações de inconformismo de algumas autoridades municipais, estaduais e federais a respeito dos relatos pessimistas quanto ao andamento das obras dos estádios brasileiros para a Copa do Mundo de 2014, especialmente no caso de São Paulo, onde nem obras existem. O que o ministro do Esporte, Orlando Silva, comentou no fim de semana, em Belo Horizonte - que a situação da capital paulista é a mais preocupante e que seu estádio não ficaria pronto a tempo de receber a Copa das Confederações, em 2013 - é consenso, pura constatação.

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2011 | 00h00

É verdade que a necessidade de manter boas relações políticas faz com que Silva mude seu discurso de acordo com a cidade onde está. Mas daí fazer biquinho porque o comentário foi negativo? Em que mundo tais autoridades vivem?

Essa reação só evidencia o quilométrico distanciamento entre o que pensam nossos comandantes e a opinião pública. Sim, prefeito, sim governador, sim ministros e presidente da República, a população brasileira está com receio.

No caso dos paulistas e paulistanos, além do medo cada vez maior de ver a principal e mais poderosa cidade do País (e, consequentemente, seus moradores) passar vergonha, me atrevo a dizer que todo esse imbróglio mexe até mesmo com a autoestima das pessoas.

E, pelo menos no que diz respeito à construção de arenas, lamento ser o portador de mais notícias ruins. Se depender da relação entre clubes e empresas responsáveis pelo financiamento e obra de estádios, o Comitê Organizador Local (COL) paulista tem motivos de sobra para ficar preocupado. Tanto no caso do Itaquerão como no da Arena Palestra, os interesses são conflituosos e a interlocução entre executivos e dirigentes repleta de ruídos e falta de sintonia.

O caso mais notório é o do estádio corintiano. Sempre quando converso com pessoas que acompanham de perto as reuniões realizadas para tratar do tema, o discurso é o mesmo. Do lado corintiano, pipocam reclamações quanto àqueles que adoram criar empecilhos apenas para atrair os holofotes da mídia e ter os famosos 15 minutos de fama à custa da visibilidade do clube. Durante algum tempo os promotores do Ministério Público foram o alvo principal desta queixa.

Já os técnicos (engenheiros e arquitetos) não economizam nas tintas quando falam da arrogância demonstrada pelos corintianos, que, segundo esses profissionais, resistem a mudanças no projeto original, além de não terem a devida preocupação com a qualidade do material utilizado na obra.

Pelos lados do Palestra Itália a situação não é menos conflituosa. Problemas que sempre existiram, mas que eram tratados em um ambiente privado, ganharam as mídias sociais. Tanto é que o dono da construtora W/Torre, Walter Torre, com quem estive há um mês, passou a expor seu descontentamento com a diretoria palmeirense em seu Twitter. Ou seja, a ideia é mesmo transformar o caso em uma discussão pública. E quando isso ocorre, cá entre nós, é sinal que a maionese desandou.

Walter Torre pediu que a diretoria palmeirense, eleita no começo do ano, ratificasse o contrato firmado com a anterior. Qual a razão disso? Simples. As seguidas informações sobre o descontentamento do Palmeiras com o acordo provocam desconfiança no mercado.

Nesse cenário, ninguém se sente seguro para se envolver no negócio. A consequência imediata é que Torre não consegue parceiros comerciais para tocar o restante do projeto da arena. Por isso ele ameaça abandoná-lo.

Por outro lado, o Palmeiras começou a buscar alternativas. Outras empresas já foram consultadas e reuniões estão marcadas. Não se surpreendam se o casamento Palmeiras e W/Torre não chegar às bodas de papel.

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