Nicolas dá novo show na piscina

Mineiro de 19 anos foi decisivo, de novo, no ouro do revezamento

Glenda Carqueijo, O Estadao de S.Paulo

22 de julho de 2007 | 00h00

O mineiro Nicolas Oliveira, de 19 anos, foi decisivo mais uma vez para o revezamento do Brasil. Ontem, nos 4 x 100 metros livre, ao lado de Fernando Silva, Eduardo Deboni e César Cielo, Nicolas foi o terceiro a cair na água. O País estava na segunda posição, mas o atleta impôs um ritmo forte e bateu na frente para Cielo fechar. A medalha de ouro ficou com os brasileiros, com 3min15s90, recorde sul-americano (3min17s03) e pan-americano (3min17s18), seguidos por Estados Unidos (3min16s66) e Venezuela (3min18s97).Minutos antes do ouro, Nicolas estava frustrado. Nos 200 m livre, prova em que tinha chance de ouro e de bater o recorde sul-americano, acabou na quarta posição por um erro de estratégia. Pretendia passar num ritmo mais fraco e crescer no fim. Mas, inseguro, ligou antes para seu técnico na Universidade do Arizona, Frank Busch, que o orientou a passar forte."Fui para o tudo ou nada. Mas paguei o preço", contou Nicolas, que liderou a prova até os últimos 12,5 m, quando sentiu braços e pernas travarem. "Foi bom para aprender a não errar mais." Mas a chateação durou pouco tempo. Concentrado para a decisão por equipes, teve apenas um pensamento: "Não quero morrer no final da prova." E foi mais cauteloso para o revezamento.É justamente no revezamento que Nicolas cresce. Ele já tinha ajudado o Brasil nos 4 x 200 m livre, quando fechou a prova com 1min46s63 em sua parcial, tempo capaz de lhe dar o ouro e o recorde sul-americano na prova individual. "No revezamento a energia é diferente, a motivação é maior. É você e mais três representando um país", disse.Com as duas medalhas de ouro nos revezamentos, Nicolas encerrou participação no Pan. Contou que jamais imaginou que um dia representasse o País nos Jogos. Isso porque, aos 7 anos, quase morreu afogado ao ser empurrado na piscina pelo irmão mais novo, Sílvio César Júnior. Não sabia nadar. Incentivado pelos salva-vidas, foi atrás de um clube para aprender natação. Inicialmente, procurou o Iate Clube, mas foi orientado a ir ao Minas Tênis Clube, tradiçional na natação.Sua carreira começou tarde, aos 12 anos, na escolinha do Minas. No dia do teste, deixou o técnico espantado ao dizer que não sabia nadar borboleta, costas e peito. "Só sabia nadar livre. Também não sabia dar virada olímpica." Mas os professores diziam ao pai, Sílvio César, que o menino tinha talento e um estilo bonito no único nado que sabia.Tudo aconteceu rápido na vida de Nicolas. No final de 2005, resolveu treinar nos Estados Unidos, incentivado pelo amigo campeão Thiago Pereira. Mas não sabia falar inglês. Seus pais não tinham como mantê-lo no exterior. Morou em uma casa de família na Flórida. Começou a treinar em um Centro de Treinamento em Coral Springs. Não ia à escola, mas estudava inglês lendo jornais e assistindo à televisão. Seu método deu certo. Três meses depois, conseguiu uma bolsa de estudos na Universidade do Arizona, onde estuda Comércio Exterior e Marketing."Estou no lugar certo, evoluindo a cada dia. Se ficasse aqui, meu pai não conseguiria, por exemplo, bancar uma faculdade particular para mim. Morro de saudade da minha família", disse Nicolas, tímido.Pouco tempo depois de chegar aos Estados Unidos, o nadador sofreu um baque com a morte de sua mãe, Nirma. "Ele estava se preparando para uma prova, quando a Nirma teve um aneurisma cerebral. Tentei esconder do Nicolas, dizendo que ela estava com uma dor de dente. Não queria preocupá-lo", contou o pai. Depois que passou na prova, Nicolas recebeu a notícia. Ele só teve tempo de ver a mãe em coma profunda um dia antes da morte. "No dia do velório, ele disse que queria voltar ao Brasil para cuidar da gente. Mas não deixei. Falei para correr atrás do sonho dele", disse o pai, emocionado.Satisfeito com seu desempenho no Pan, Nicolas está deslumbrado com o assédio e reconhecimento do público. "Saí lá de Belo Horizonte quietinho, nunca imaginei que estaria aqui nadando, ganhando dois ouros, com muita gente atrás de mim, gritando meu nome, pedindo autógrafo. A primeira entrevista que eu dei na vida foi para um jornalzinho da escola. Agora, estou aqui, dando entrevista para todos vocês. Estou muito feliz", concluiu.

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