Sergey Shakuto
Sergey Shakuto

Nicole Pacelli é indicada para premiação de ondas grandes e projeta novos rumos na carreira

Surfista espera reconhecimento por seu talento

Entrevista com

Nicole Pacelli

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2017 | 16h49

Nicole Pacelli vai tentar repetir o feito de Maya Gabeira e conquistar o prêmio de Melhor Performance Feminina no Big Wave Awards, o Oscar de Ondas Grandes do surfe. Ela disputa com Paige Alms, Justine Dupont, Keala Kennelly e Bianca Valenti e premiação neste sábado e justamente por causa da indicação ela pretende mudar um pouco o rumo de sua carreira. A bicampeã mundial de Stand Up Paddle vai se dedicar também às ondas grandes. Ela tem um programa na televisão e quer ser reconhecida principalmente pelo seu talento em cima da prancha. "Eu quero ser reconhecida pelo que eu faço e não pela minha aparência", afirma. Confira a entrevista exclusiva: 

Qual a sensação de estar na premiação do Big Wave Awards?

Eu fiquei muito feliz de ter sido indicada, na verdade foi uma surpresa pra mim! Eu sempre gostei de surfar ondas grandes, mas nunca foi uma coisa séria. Ano passado aconteceu o primeiro campeonato de ondas grandes feminino da história e eu fiquei com muita vontade de participar, pois é só para convidadas. Eu pensei que se eu pegasse alguma onda boa e me destacasse também poderia ser chamada, por isso fui em dezembro pro Havaí com esse foco! Consegui pegar três ondas boas lá, mas várias outras mulheres também pegaram em outros lugares do mundo. Eu sabia que tinha chance de estar entre as finalistas. Quando a WSL divulgou as finalistas foi uma surpresa pra mim, demorou pra cair a ficha que eu estava entre os melhores atletas de ondas grandes do mundo! Foi uma realização pessoal muito grande e me fez ficar mais confiante em mim mesma!

O Brasil já teve indicadas como Maya Gabeira e Sylvia Nabuco. Você imaginava que poderia estar entre as melhores do mundo em ondas grandes nesta temporada?

Eu sabia que tinha potencial para isso, mas não imaginava que essa nomeação ia vir tão rápido! Várias mulheres estão nisso faz muito tempo, viajam para pegar ondas grandes, tem sua carreira de atleta baseada nisso! Eu corro o Circuito Mundial de stand up, o que é totalmente diferente. A única época do ano que surfo ondas grandes é quando vou para o Havaí. Passo aproximadamente três meses lá todo ano pra treinar em ondas pesadas e evoluir como atleta. Eu fui esse ano para tentar estar entre as finalista, mas  só da WSL ter divulgado minhas ondas já era uma grande conquista, pois eu sabia que se quisesse estar no Big Wave Awards teria de treinar muito! Tudo aconteceu muito rápido, essa nomeação me deu mais confiança e vontade de treinar para conseguir solidificar meu espaço no meio dos grandes nomes do esporte.

Seu pai é um surfista de ondas grandes. O que ele te ensinou para arriscar no surfe quando o mar está grande?

Meu pai me ensinou tudo o que eu sei. Com certeza esse amor que tenho pelas ondas grandes nasceu por causa dele. Ele sempre me passou muita confiança dentro do mar, me mostrou como ficar calma em momentos tensos e difíceis, acho que isso é o mais importante para um surfista. Ele é o responsável por grande parte das minhas conquistas até hoje.

Muito se fala de sua beleza. O que você faz para não deixar o lado "musa" ofuscar o lado "atleta"?

Eu não penso muito nisso, acho que é porque nunca fui uma pessoa superficial, sempre valorizei o que as pessoas são por dentro, suas conquistas do dia a dia e o que elas fazem pelos outros. Nunca me contentei com pouco, sou super exigente comigo mesma, e isso é meio ruim às vezes (risos), mas isso me faz querer evoluir sempre tanto no esporte como quanto pessoa. Eu já ouvi de muita gente que estou onde estou por causa que sou bonita e isso me incomoda um pouco! Antes de eu conseguir patrocínio e ter um programa na TV, eu tive de treinar muito, competi com os homens e ganhei dois títulos mundiais. Eu quero ser reconhecida pelo que eu faço e não pela minha aparência, admiro muito as mulheres que pensam assim também, mulheres que querem ser mais do que um "rostinho bonito ".

Ser indicada para essa premiação muda alguma coisa no seu planejamento de carreira? O que pretende fazer daqui para frente?

Essa indicação vai mudar um pouco o meu planejamento de carreira sim! Até agora, eu só treinei para o circuito mundial de stand up, o foco desse treinamento é evoluir nas manobras, estratégia de bateria, etc.. agora meu plano é começar a treinar para ondas grandes também! Vou ter que treinar muito minha remada, que é muito diferente do que remar de stand up, treinar apneia, fazer vários treinamento aeróbicos, etc. Vou tentar conciliar os dois tipos de treino. Com essa indicação ao Big Wave Awards eu estou com esperança de ser chamada para o Circuito Mundial de Ondas Grandes, então talvez eu tenha dois circuitos mundiais diferentes para correr em 2017.

Quais surfistas que mais admira?

O surfista que eu mais admiro é o meu pai! Ele é minha inspiração e me ensinou tudo o que eu sei. Até hoje, com 52 anos, ele se destaca quando entra no mar, principalmente quando o mar está bem pesado! Quero um dia conseguir ficar tão tranquila quanto ele em situações críticas. Também admiro muito meu namorado, ele é surfista de ondas grandes e já me deu vários toques dentro d'água. Respeito muito a opinião dele.

Você sempre surfa em Maresias, praia que projetou Gabriel Medina e Miguel Pupo, entre outros. Como é sua relação com esses surfistas do WCT?

Eu me inspiro muito nos dois! São surfistas que vieram do mesmo lugar que eu e conquistaram o mundo. Valorizo muito o trabalho deles, sei o quanto eles batalharam para estar onde estão! Não somos muito próximos hoje em dia, mas torço muito por eles!

As mulheres estão ganhando cada vez mais espaço no surfe. Quais as perspectivas para vocês na modalidade?

Eu acho que o surfe feminino só tem a crescer, mas ainda falta investimento! Acho que não faz sentido mulheres não terem tantos patrocínios quanto os homens, é o público feminino que compra mais, que acompanha a vida das atletas, quer saber o que elas usam para pele, cabelo, o que vestem, etc.. Por isso acho que ter uma mulher representando alguma marca traz muito mais retorno do que um homem. De um tempo pra cá, muitas marcas que não são do mercado do surfe estão apoiando o surfe feminino, acho isso demais! São atitudes como essa que me dão esperança que o surfe feminino vai crescer muito ainda no Brasil.

 

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