''Ninguém recusa esse convite'', diz Ênio

Novo técnico da seleção feminina diz que cargo foi uma ''feliz surpresa''. E se prepara para o ''melindre'' de colegas

Amanda Romanelli, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2010 | 00h00

O paulistano Ênio Ângelo Vecchi, de 51 anos, ainda não teve muito tempo para se acostumar: anteontem, foi oficialmente anunciado como técnico da seleção feminina de basquete, com contrato até 2012. "Parece que os dias estão emendados", brincou o treinador, que ontem concedeu suas primeiras entrevistas como dono do cargo.

Ênio será o terceiro técnico da seleção feminina no curto mandato de Carlos Nunes, que assumiu a presidência da Confederação Brasileira de Basquete (CBB) em maio de 2009, e terá a difícil missão de classificar o time para a Olimpíada de Londres. Ele substitui o espanhol Carlos Colinas, que ficou apenas nove meses no cargo e decepcionou no Mundial da República Checa - o time terminou em 9.º.

Antes de ter empossado Ênio, a CBB ouviu o "não" de dois técnicos (leia abaixo). Resolveu, então, apostar em um treinador sem qualquer experiência com equipes femininas e que precisará, ainda, dividir forças com o time masculino que dirige, o Cecre/Vitória. A "vida dupla" do técnico se estenderá até o fim do NBB, em abril de 2011.

Apesar da situação complicada, Ênio diz que não titubeou para assumir a seleção. "Quando me ligaram, falei na mesma hora que tinha interesse e só pedi que falassem com o presidente do meu clube. Fui prontamente atendido e, enquanto isso, tive um tempinho para pensar", conta. "Acho que ninguém em sã consciência recusa esse convite. Foi uma feliz surpresa."

Assumir uma seleção não é novidade para Ênio. Ele comandou a seleção masculina no Mundial do Canadá, em 1994, quando ficou com a 11.ª colocação (a segunda pior na história). Também foi auxiliar de João Marcelo Leite no Sul-Americano deste ano, na Colômbia - a seleção garantiu o ouro e a vaga para o Pré-Olímpico de Mar del Plata, em 2011.

Ênio terá de se desdobrar para conhecer as jogadoras - veteranas e promessas -, achar datas para viajar e ver os jogos da Liga Feminina, que termina em fevereiro, e acompanhar as possíveis rivais do Pré-Olímpico. "Vou ter de dar um jeito. Quero estar nos grandes jogos, dentro e fora do Brasil", admite. E já se prepara para possíveis críticas dos colegas que militam no feminino e foram preteridos na escolha feita pela CBB. "Eu gostaria muito de acompanhar bem de perto. A gente sabe que vai ter um certo melindre dos técnicos, mas que não é pessoal. Isso é parte do desafio."

Ajuda. Não é a primeira vez que um técnico de time masculino é chamado para treinar a seleção feminina. Isso aconteceu também com Miguel Ângelo da Luz, que levou Hortência, Paula e Janeth ao título mundial de 1994. Para repetir semelhante sucesso (e que começou com uma boa dose de desconfiança), Ênio já definiu sua estratégia. "Preciso primeiro construir o time emocionalmente para depois construi-lo dentro de quadra."

Ainda preocupado com o modo de agir com as meninas, diz que pedirá muita ajuda a Hortência Marcari, diretora do departamento feminino da CBB, e Janeth, que será sua auxiliar. "O basquete tem uma linguagem mundial, mas eu preciso entender melhor as atletas. No masculino, o técnico dá uma bronca e às vezes a coisa se resolve. No feminino, já existe uma diferença. Temos de construir um relacionamento autêntico", comenta.

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