No aeroporto

Sozinho aguardava seu voo. O barulho ao redor era intenso. Vozes de todos os tipos falando alto na maior parte das vezes, em celulares e outros aparelhos esquisitos. Ouviu bem perto uma voz feminina que dizia em tom agudo: "É ela, é ela! coitada!'', acompanhada de um braço apontando alguma coisa à frente. Ele seguiu o olhar e viu um pequeno grupo de pessoas com uma jovem no meio. Alta, esguia, esportista da cabeça aos pés. Ao seu redor, pessoas que pareciam parentes se agrupavam. Todos choravam.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h03

É impressionante como se chora em aeroportos brasileiros. Uma ausência de três dias aqui no Brasil assume a gravidade de uma travessia do Atlântico no século 16. Por isso ele não se surpreendeu muito, era apenas alguém que chegava. Mas viu logo que se tratava de algo menos comum. A moça trazia comparativamente pouca bagagem. Não arrastava nenhum carrinho cheio de enormes pacotes empilhados, não usava nenhum adereço ou enfeite que atestasse sua recente estada no exterior. Nem sequer óculos escuros. Vestia calça e agasalho esportivos com um nome de marca conhecida estampada em várias partes. Seria de um patrocinador?

As pessoas ao seu redor limitavam-se a abraçá-la convulsivamente e enxugar as lágrimas. E não eram lágrimas de alegria pela chegada de alguém querido. Por alguns traços fisionômicos comuns, percebeu claramente que havia pais e irmãos entre os melancólicos que a recepcionavam. E imediatamente pensou no óbvio. Era uma atleta cortada no último instante antes da Olimpíada. Por isso a família chorava; por isso não havia nenhuma imprensa a se ocupar de sua chegada. Era a que sobrou, a que não ia.

A imprensa estava toda em Londres, ocupando-se de quem estava lá. Todas as atenções do país estavam voltadas para Londres. A cena que ele presenciava no aeroporto não interessava a ninguém, exceto àquele pequeno círculo que tinha depositado todas as suas esperanças na moça, Em vez de vê-la pela televisão viam-na em pessoa chegando no aeroporto, cortada. A própria palavra embute toda a violência do fato. Alguém, por alguma razão, é violentamente arrancado, amputado, cortado de uma equipe.

Tudo isso passou pela sua cabeça enquanto observava a cena. Notou então que a única que não chorava era a moça. Parecia apenas extremamente cansada. A alta estatura acentuava uma fadiga comprovada pelos ombros um pouco encurvados. A tristeza seca da moça lhe fez muito mal. Preferia que ela também estivesse chorando. Talvez já tivesse chorado tudo na viagem. Seu olhar parecia ir para além das pessoas e dava a impressão que parte dela não estava ali.

O pior é que ele não tinha a menor ideia de quem fosse aquela atleta. Mas lembrou-se da voz que dizia "é ela, coitada'', e resolveu sair dali antes que ela fosse reconhecida completamente. Sentou-se no bar, pediu um capuccino e ficou assistindo os gols da rodada.

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