No alto do pódio, Taciana acerta as contas com sua história

Atleta encontrou o pai, passou a competir por Guiné-Bissau e virou campeã africana

Amanda Romanelli, O Estado de S. Paulo

28 Abril 2013 | 20h16

SÃO PAULO - Taciana Lima subiu ao pódio no Pavilhão da Académica, em Maputo, capital de Moçambique, sem saber muito bem o que esperar. Conhecia o instrumental da música, mas não tinha conseguido achar na internet a letra do hino de Guiné-Bissau, agora seu país nas competições de judô.

No lugar mais alto, um tanto constrangida - admite -, ganhou a medalha que simboliza seu primeiro título como guineense. Aos 29 anos, nascida em Olinda mas criada em Porto Alegre, é a atual campeã africana da categoria ligeiro (até 48 kg). O judô intermediou um acerto de contas de Taciana com a sua história. E, quando esporte e vida pessoal se encontraram, a judoca encontrou uma nova motivação na carreira. "Eu sempre soube que tinha sido criada pelo meu padrasto, e nunca tive a curiosidade de saber do meu pai." Até 2007.

"Fui derrotada na seletiva para (a Olimpíada de) Pequim", conta a judoca, que perdeu a vaga para uma jovem atleta chamada Sarah Menezes - hoje, campeã olímpica do peso ligeiro. "Fiquei muito mal. Saí ganhando a seletiva, perdi de virada, tive uma lesão no joelho. E aí, não sei... Veio meu pai na cabeça."

Taciana sabia que tinha um pai biológico estrangeiro, que tinha vindo estudar engenharia no Recife. Conversou com a mãe, que lhe deu a informação: com um nome em mãos - Oscar Suca Baldé -, foi à internet. Descobriu o paradeiro do pai. Ele era ministro da Pesca em Guiné-Bissau. Para tentar um contato, ligou para o consulado. No dia seguinte, recebeu uma ligação de Oscar. "Ele disse que tentou encontrar minha mãe, porque nem sabia meu nome. Mas não conseguiu, porque mudamos para Porto Alegre."

Entre 2007 e o fim de 2012, Taciana e o pai mantiveram contato frequente, mas apenas de maneira virtual. Ela até conheceu os meios-irmãos que vivem em Portugal quando, em 2011, foi disputar uma Copa do Mundo em Lisboa. "Por coincidência, também são atletas, praticam o atletismo."

Pessoalmente, Taciana e Oscar se viram, pela primeira vez, em 2012. No Senegal, encontraram-se para passar o réveillon. Em seguida, a judoca conheceu a nação de seu pai. Lá, passou pelo processo de reconhecimento de paternidade, ganhou o sobrenome Baldé e a nacionalidade guineense.

Na volta ao Brasil, tomou a decisão: competiria pelo pequeno país africano, com pouco mais de 1,6 milhão de habitantes e uma história marcada por golpes de Estado desde a independência de Portugal, em 1974. "Foi tudo muito rápido", diz a judoca. "Em dez dias, consegui a transferência e fui competir."

Atual 31.ª do mundo, Taciana admite que a competição interna no Brasil foi um fator considerado. Com Sarah Menezes à sua frente, seria difícil conseguir alcançar seus sonhos, o de disputar um Mundial e uma Olimpíada. "Em compensação, eu posso fazer muito por Bissau."

O Campeonato Africano teria grande importância nessa caminhada. O torneio conta muitos pontos para o ranking mundial, que define a classificação olímpica. Taciana foi sozinha para Moçambique disputar sua primeira competição como guineense. Em Maputo, recebeu o apoio e a solidariedade dos colegas africanos, em especial daqueles que compartilham a língua portuguesa. Lá, descobriu a rivalidade entre a África negra e a África árabe - Tunísia, Argélia e Egito são as principais forças do continente.

Para chegar à final, Taciana derrotou uma tunisiana, até então a melhor da África na categoria. Na disputa pelo ouro, venceu a argelina Sabrina Saidi. Ganhou todas as suas lutas por ippon. A torcida veio abaixo. "Me disseram que, pela primeira vez, um país negro teve uma campeã no ligeiro. Um árbitro disse que nunca viu Guiné-Bissau em uma competição. Me emocionei."

Um de seus sonhos Taciana já conseguiu - está classificada para disputar o Mundial que será realizado em setembro, no Rio. Para participar de sua primeira Olimpíada, terá de competir em muitos torneios internacionais e somar pontos com o quimono que recebeu nas costas a sigla GBS (de Guiné-Bissau) e o sobrenome Lima Baldé. Mas, independentemente do que acontecer, Taciana tem uma certeza: "Hoje, minha história de vida é completa."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.