Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

No Brasil, o talento que o Talibã não sufocou

Nascida no Afeganistão, atacante é uma das atrações da final entre Brasil e Dinamarca hoje, no Pacaembu

VALÉRIA ZUKERAN, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h04

Quando Brasil e Dinamarca entrarem em campo hoje, às 17 horas, no Pacaembu, para a final do Torneio Cidade de São Paulo, uma atração especial, além das brasileiras, será a presença da atacante do time adversário, Nadia Nadim. Muitas pessoas que apreciam o futebol desta atacante, fã inveterada de Ronaldo, não sabem que, se dependesse do Talibã, ela jamais estaria jogando, muito menos cursando o segundo ano da faculdade de medicina. Talvez nem estivesse viva.

Nadia é de origem afegã. Na infância, viveu sob as regras do Talibã em seu país, onde as mulheres não podem sair de casa sozinhas, não podem estudar e muito menos praticar esportes.

A situação financeira da família era considerada boa, mas nem por isso a vida foi mais fácil. "No Afeganistão não passei fome, nem qualquer tipo de necessidade. Só estou aqui porque minha família tinha condições. Para fugir de lá é preciso muito dinheiro", conta. "Mas lembro que as coisas eram muito tensas pela questão política."

A atacante ressalta que seu pai era militar, o que o impossibilitava de ficar fora dos conflitos políticos. Ele conseguiu tirar a mulher e as cinco filhas do Afeganistão e mandá-las para a Dinamarca. Outros familiares já estavam espalhados pela Europa antes de a situação ter ficado mais crítica, o que facilitou. "Mas meu pai morreu lá", lamenta.

A mudança para a Dinamarca transformou radicalmente a vida de Nadia que, aos 11 anos, frequentou a escola pela primeira vez. A dificuldade de adaptação existiu, mas foi menor, por causa da mãe. "Ela era uma pessoa instruída e sempre deu valor à educação", explica.

E, na medida do possível, tentou passar o conhecimento que tinha às filhas em casa. O resultado é que, hoje, Nadia e a irmã mais velha estudam medicina.

O que ninguém poderia prever na mudança para a Dinamarca é que o ambiente também seria propício para o desenvolvimento do talento das Nadim para o esporte.

Nadia conta que ela e duas irmãs jogam futebol, e outra luta boxe, com a possibilidade de se classificar para a Olimpíada de Londres, pela Dinamarca.

A atacante revela que se desdobra para conciliar estudos e esporte. "É complicado. Por exemplo, tive de viajar sozinha para o Brasil, três dias depois da delegação, porque tinha provas."

Em campo, os sentimentos são divididos entre os pessoais e os da equipe. "Como jogadora eu sou dinamarquesa mas, como pessoa, eu sou dinamarquesa e afegã."

A atleta é resistente à ideia de se ver como exemplo para outras mulheres refugiadas, até porque prefere deixar a política de lado. O assunto só estimula o interesse da atacante quando é para falar dos seus sentimentos pelo Talibã e a chamada Primavera Árabe, na qual vários países de orientação radical têm sido pressionados a diminuir o controle sobre a população.

Suas recordações do Talibã não são boas. "A gente não podia fazer nada. Era inacreditável", relembra. E fica feliz ao ver os movimentos populares em busca de mais liberdade. "O melhor de tudo é que o povo está dando um basta, sem precisar outros países imporem suas ideias."

FUTEBOL

Nadia espera que hoje a Dinamarca possa repetir o resultado de quinta-feira, quando ganhou do Brasil por 1 a 0. Admite que deve ser mais difícil, mas não considera o título impossível. Segundo a atacante, o Brasil tem muitos talentos individuais, mas não um conjunto ou uma defesa mais consistente. "Você sempre sabe que elas vão tentar um drible. Quando você consegue prever o que elas farão, fica fácil."

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