Rena Laverty/AFP
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No câmpus de Nassar, maior escândalo do esporte norte-americano continua a ecoar

Médico sentenciado a mais de 200 anos de prisão atuou por 25 anos na universidade de Michigan State

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 08h06

Nos corredores das instalações usadas por ginastas no câmpus da Michigan State University (MSU), os ecos do maior escândalo do esporte norte-americano continuam a soar. Nem os cadeados nos armários, nem as manobras da cúpula da universidade parecem abafar o que aconteceu. Ali, nas salas do Jeninson Field House, trabalhou por 25 anos o médico do time olímpico dos EUA, Larry Nassar, até então considerado um "mágico" na recuperação de atletas - e agora sentenciado a mais de 200 anos de prisão por assédio ao time de ginastas do país.

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"Eu o denunciei por assédio sexual há 20 anos e nada foi feito", disse ao Estado uma dessas vítimas, Larissa Boyce. Para ela, os crimes de Nassar envolvendo 265 meninas não poderiam ter ocorrido por tantos anos sem a cumplicidade de outras pessoas, inclusive dentro de sua universidade. O caso que eclodiu em 2017 revelou como algumas das maiores estrelas da ginástica foram alvos de assédio por parte do médico.

Ele foi condenado no início do ano. Desde então, uma dezena de autoridades esportivas e acadêmicas foram obrigadas a deixar seus cargos. Entre elas está Scott Blackmun, CEO do Comitê Olímpico dos Estados Unidos.

Nos corredores por onde o médico trabalhava, a certeza é de que o número de esportistas vítimas de Nassar vai além das estrelas e que seus cúmplices conseguiram evitar punição. Nesta semana, Jacob Moore passou a ser o primeiro atleta masculino a denunciá-lo.

Em conversa com a reportagem do Estado, Larissa conta que em 1997 estava na equipe juvenil de ginastas da Universidade do Estado de Michigan (MSU) e que tudo o que ocorreu durante 20 anos poderia ter sido evitado se autoridades a tivessem escutado. A garota que hoje é mãe de quatro meninos explicou que saiu de uma consulta com Nassar e foi diretamente relatar o que tinha ocorrido à sua treinadora, Kathie Klages, que levou um susto com sua narrativa. "Minha treinadora me disse que aquilo era um absurdo, que Larry era um médico reconhecido e que eu deveria pedir desculpas a ele".

Tudo está muito vivo em sua mente. "Disseram que eu iria criar problemas para o Larry e para mim mesma. Então me convenci de que eu era o problema, que tinha uma mente pervertida. Eu me desculpei".

Passados 20 anos, Larissa sabe hoje que o problema não era ela. "O problema é que ele continuou a abusar de mim por mais dois anos. Eu tinha 16 e os adultos não acreditaram em mim. Hoje tive de passar por um processo de me desculpar a mim mesma por não ter ido adiante com as denúncias", comentou.

Larissa faz um alerta. Diz que a história ainda não acabou. "O que ainda precisa ser determinado é como uma pessoa como essa foi autorizada a permanecer tantos anos em uma função tão central no esporte". Ela e outras duas vítimas contaram ao Estado que, hoje, toda atenção está voltada à direção da Universidade de Michigan, que manteve Nassar por anos e o recomendou para servir as ginastas dos EUA em Jogos Olímpicos.

Entre a comunidade da cidade de East Lansing, o sentimento é de consternação e preocupações financeiras. Nos meses que se seguiram à condenação do médico, a universidade registrou queda de 40% em doadores, um dos pilares centrais do orçamento da instituição que investe a cada ano cerca de US$ 120 milhões (R$ 390 milhões) nos esportes. O local que foi o berço esportivo de Magic Johnson, da NBA, hoje é alvo de protestos e um enfrentamento aberto entre estudantes, esportivas e a direção do local.

A presidente da Michigan State University, Lou Anna Simon, abandonou seu cargo e, em carta aberta, admitiu que "nunca poderá se desculpar de forma suficiente" por causa da presença de Nassar dentro do câmpus. Ela, porém, é acusada de ter arquivado um processo contra o médico em 2014 e não ter repassado as reclamações de estudantes para a polícia.

PROCESSOS

O temor não é apenas com a perda de doadores. Mas diante da possibilidade de uma proliferação de processos legais que poderiam custar caro aos cofres da universidade. Há poucos anos, a descoberta de assédio por parte de um treinador da Penn State levou a instituição a ter de pagar US$ 250 milhões (cerca de R$ 813 milhões) em indenizações para as vítimas.

Entre os alunos que conversaram com o Estado, o sentimento é de indignação diante do comportamento da direção. "Esperar que a universidade faça algo sozinha não é uma realidade", disse Morgan McCaul, também vítima de Nassar. "Pessoas aqui dentro o inocentaram e criaram o ambiente para que ele pudesse continuar a agir". Procurada, a MSU se limitou a dizer que está colaborando com as investigações.

Jessica Smith, assediada na universidade, pontua que a nova etapa do processo é a de saber quem foram os responsáveis por permitir que Nassar mantivesse acesso a tantas meninas por tantos anos. "O que impressiona é que, depois de tudo o que já sabemos, temos ainda de lutar", disse. Ela revelou ainda ter pesadelos. "Ele abusou de minha confiança e de meu corpo". Jessica é professora de dança. "Com 17 anos, tive um problema no tornozelo e minha treinadora me mandou para ver Larry. Até hoje não sei como ele chegou às minhas partes íntimas", revelou. "Não podemos nos esquecer dessas histórias para que elas não se repitam", alertou.

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