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Antero Greco
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No embalo de Bauza

Edgardo Bauza não compõe o figurino do técnico descolado, não é sujeito revolucionário e pertence à escola dos que sabem montar equipes ajustadas e que chegam a brigar por títulos. Ou no mínimo não dão vexames. Tem suas concepções de futebol, aferra-se a elas e dessa maneira pavimentou carreira por vários países. Pesam-lhe como argumento favorável duas Libertadores com clubes medianos – a LDU e o San Lorenzo.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2016 | 03h00

Com esse perfil, o argentino molda o São Paulo que avançou para a semifinal do torneio continental. O time que se tem visto nos últimos meses não enche os olhos, possui elenco aquém do que já apresentou em diversos períodos da própria história. Para ser bem claro, em cada posição o São Paulo já teve por baixo sete ou oito atletas melhores do que estão por lá.

Ok, sinal dos tempos e limitação disseminada entre todos os grandes daqui. E importa que a turma de Bauza se supera e contraria previsões pessimistas. Se avançará para a final, se obterá a copa pela quarta vez, não se sabe. Fato indesmentível: saiu das cinzas, derrubou dois favoritos (Toluca e Atlético) e resta como único brasileiro na luta.

Em tais momentos, buscam-se explicações, os segredos para a reação. Porque há necessidade de algum componente épico para entender a reviravolta. O esporte exige um quê de místico, a emoção precisa ser estimulada.

Não há mágica, não se tiram coelhos da cartola, tampouco surgiu um craque de última hora para assumir a função de salvador da pátria tricolor. O São Paulo de hoje é resultado de trabalho de Bauza com quem tem à disposição. Depois de muito testar, escolheu uma base e com ela segue em frente.

A defesa aparentemente está definida, apesar de não ser o ponto forte do conjunto, como ele pretendia e havia anunciado nos primeiros dias de Morumbi. No gol, por exemplo, difícil cravar que Dênis se firmará como o herdeiro de Rogério Ceni. Além da enorme sombra do mito que lhe pesa nas costas, depõem contra ele as bolas que solta em lances fundamentais. Existe interrogação em torno do futuro do zagueiro Maicon, que pertence ao Porto.

O meio-campo acomodou-se para a estratégia da disputa da Libertadores, tem dado conta do recado e concentra em Ganso a maior dose de talento. Ainda assim, é instável; falta-lhe um segundo maestro. Na frente, desde que desencantou Calleri é a referência. Pena que vá embora após a competição. No entanto, por breve que seja a passagem pelo clube, deixa a marca de gols notáveis.

Não é São Paulo dos sonhos e há risco de avaliação superficial e imediata, feita em cima da classificação suada, na derrota por 2 a 1 para o Galo. Porém, o olhar benevolente não aparece do nada. Jamais se despreza o aspecto emocional, sobretudo em esporte coletivo. A moçada de Bauza quase foi para o buraco, quando perdeu para o The Strongest, em casa e na estreia. Depois, sofreu com empate e a eliminação precoce parecia irrecorrível.

O time reergueu-se nos duelos com o River Plate argentino, assumiu a condição de azarão e atropelou. Não será o primeiro nem o último caso de superação; nem por isso, a proeza é menos empolgante. Pena que só volte em julho. Fosse agora a semifinal, arriscaria apontar o São Paulo como favorito, pois está cheio de si. Que não murche a autoconfiança até lá. Antes, que ela aumente com resultados convincentes no Brasileiro. E não se espere mudança de postura de Bauza, tradicional a ponto de não se esforçar sequer para arriscar um portunhol.

Bacana, mas... Excelente a reportagem de Robson Morelli, publicada ontem e que traz pontos principais de Código de Ética em elaboração para ser aplicado pela CBF, com extensão para Federações e Clubes.

Se as normas vingarem, o futebol brasileiro tornar-se-á exemplo para o mundo, pela transparência, lisura e rigidez de comportamento. Para ser confiável de fato deveria começar com o gesto de grandeza da renúncia do presidente Del Nero.

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