Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

No Havaí, locais estão 'em pé de guerra' com surfistas

Dificuldade para treinar pode prejudicar Gabriel Medina, que busca o primeiro título de um brasileiro na competição

Paulo Favero, Estadão Conteúdo

26 de outubro de 2014 | 08h33

Em todas as etapas do Circuito Mundial de Surfe, dois convidados se juntam aos 34 classificados pelo ranking do ano anterior. No entanto, no Havaí existia um costume de colocar oito ou até 16 locais no evento que fecha a temporada, em Pipeline. Só que em 2014 a ASP (Associação dos Surfistas Profissionais) colocou a mesma regra para todas as etapas e o clima está tenso no Havaí.

Eddie Rothman, conhecido como Fast Eddie, considerado um dos principais incentivadores do localismo havaiano, deu entrevista recentemente afirmando que não vai ter campeonato no North Shore se não mudarem as regras novamente. "Não vamos ceder", avisou, garantindo que os surfistas de lá vão atrapalhar até o treinamento dos profissionais do Circuito Mundial.

Isso, por exemplo, pode prejudicar Gabriel Medina, que busca o primeiro título de um brasileiro na competição. O garoto de Maresias parte no próximo dia 16 para o Havaí e vai tentar pegar o máximo de ondas possíveis. "Lá é difícil por causa do localismo. Nesta época do ano tem muita gente surfando por lá, é complicado para treinar, mas é isso. Estou indo fazer a minha parte e espero conseguir pegar umas ondas para estar preparado para o dia que eu precisar", disse.

A tensão entre surfistas locais e a entidade que rege o surfe profissional pode se acirrar um pouco mais durante o evento, que será realizado de 8 a 20 de dezembro, e isso é motivo de preocupação. Na história, são inúmeros casos de confusões, brigas e até espancamentos de estrangeiros por causa de disputa por espaço dentro da água. Até Adriano de Souza, o Mineirinho, que está na elite do surfe, já teve de andar com segurança particular por causa de uma discussão com um havaiano no Taiti, que se estendeu para Pipeline.

Outros casos famosos são de Paulo Moura, que em 2005 disputou uma onda com o filho de Fast Eddie, Makua, e acabou levando um tapa. Dois anos depois, Neco Padaratz estava na onda quando Sunny Garcia voou de sua prancha no pescoço do brasileiro. Ele saiu do mar correndo e teve de ser escoltado, mesmo tendo razão na confusão.

Para Zé Paulo Ferreira, comentarista de surfe da ASP, um lema é levado a sério no North Shore, região das melhores ondas do Havaí: respeite para ser respeitado. "Lá é preciso dar prioridade para o surfista local e tem de evitar ficar na frente deles quando estão na onda", explicou. Ele recomenda ainda evitar saídas noturnas e ir a festas. "Já vi muita coisa acontecer, principalmente se o pessoal bebe ou mexe com as mulheres".

Há muitos anos o especialista vai para o Havaí e lembra que todos os atletas terão dificuldades para treinar. "Lá não existe onda vazia, sempre tem alguém surfando. Então, além de dificultar o treinamento, as ondas que sobram são as piores, o que aumenta o risco de lesão. A situação melhorou muito, mas ainda existe o localismo", disse.

Zé Paulo explica que esses havaianos enxergam o estrangeiro como alguém que vai surfar a onda deles. "Por isso, nunca é bom disputar espaço nas melhores ondas da série. Outra coisa importante é ser discreto na praia. Eles não gostam de pessoas fazendo muito barulho e bagunça. Mas a partir do momento que você segue essas regras de convivência, você começa a ser aceito e eles te permitem compartilhar as ondas".

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