No mundo da Lua

Boleiros

Ugo Giorgetti, ugog@estadao.com.br, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

Apesar da velocidade das comunicações, as coisas continuam chegando ao Brasil com o tradicional atraso. Acontecem primeiro nos Estados Unidos e Europa, para depois, sempre depois, aportarem por aqui. No futebol elas chegam com atraso maior ainda. Talvez porque os dirigentes do futebol brasileiro demorem mais tempo para enxergar as coisas. O momento atual é exemplar. A tremenda crise, da qual ninguém sabe ainda a dimensão, já atingiu em pleno o futebol europeu. Recentemente fui informado que o Real Madrid, fina flor da modernidade, do marketing, dos salários astronômicos, dos "galácticos" enfim, está virtualmente quebrado. O balanço deste ano faria qualquer empresário normal começar a chamar seus advogados. E o Real não está só. Tem ilustres companheiros como o glorioso Barcelona. Da Inglaterra chegam notícias de que os misteriosos russos que são donos dos times ingleses, apesar de misteriosos, não estão imunes à crise e perderam fortunas imensas. Da Itália as notícias nem chegam, e não é preciso. Em matéria de crise ninguém ganha da Itália, região, no entanto, com expertise e experiência que vem da Idade Média na arte de sobreviver a imbróglios e confusões financeiras. Gostaria de saber, contudo, como andam as ações do Milan neste momento e quanto perdeu em todas essas jogadas o grupo financeiro do dono do clube, senhor Silvio Berlusconi.A aposta quase generalizada de atrelar os clubes de futebol ao que há de pior no universo das finanças mostra os resultados. A aposta em captar dinheiro de qualquer maneira e de qualquer lugar cobra seu preço.Enquanto os quatro cavaleiros do Apocalipse cavalgam pela Europa, o que acontece no Brasil? Nada. Por outra, ignorando sinais do exterior os clubes insistem na jogadas de efeito, idéias mirabolantes, transferindo para um futuro incerto e ameaçador os efeitos das medidas tomadas agora. Há exceções, e são sempre as mesmas. São, na verdade, os clubes que costumam ganhar os títulos. Os outros, desesperados, tentam chegar a esses mesmos títulos através de atalhos, insistindo em não ver as coisas de frente. A época dos salários estratosféricos está acabando, se é que já não acabou. E está acabando não porque o mundo teve um acesso de bom senso e da proporção das coisas, mas porque a crise chegou. No entanto, aí estão vários clubes arriscando-se em empreendimentos caríssimos, como se nada estivesse acontecendo. Quanto custaria Adriano para o Flamengo? Quanto vai sair Ronaldo para o Corinthians? Kleber, do Palmeiras, vale o sacrifício de 8 milhões de dólares? Isso sem falar em outros salários absurdos. Talvez me engane, não entendo nada de economia mesmo, mas é possível que muitos dirigentes brasileiros entendam ainda menos e se recusem a enxergar o momento histórico.O pior é que ouço gente inteligente e preparada apoiando essas empreitadas à beira do abismo. Nesse momento ouço muito falar da genial jogada de marketing, a vinda de Ronaldo, que ofuscou o brilho do título do São Paulo, tirando-o da mídia, e também do resultado espetacular da venda das camisas.Bem, se camisa desse lucro, o balanço do Real Madrid seria comemorado com champanhe.

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