Fabrice Cofrini/AFP
Fabrice Cofrini/AFP

No palácio, inicia a luta por votos para presidência do COI

Alemão é favorito à sucessão de Rogge, mas há um movimento para tirar o comando das mãos europeias

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL/LONDRES , O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2012 | 03h07

LONDRES  - Depois de tirar as Olimpíadas do eixo Europa-Estados Unidos e levar para China e Brasil, o Comitê Olímpico Internacional pode viver uma segunda revolução. Começou ontem a corrida para a presidência da entidade. As eleições estão marcadas para 2013, colocando um fim ao mandato de doze anos do belga Jacques Rogge. Mas cresce dentro da organização a pressão é para que, finalmente, alguém de fora da Europa assuma o controle do movimento olímpico.

Ontem, enquanto os mais de cem membros da entidade se reuniam para uma festa de gala no Palácio de Buckingham e depois na Ópera Real de Londres, os bastidores eram tomados pelo início de uma intensa negociação por votos.

O grande favorito é o alemão Thomas Bach, ex-campeão olímpico na esgrima e um advogado de prestígio. Foi ele também quem redesenhou o processo de seleção de cidades para sediar os Jogos, dando um ar mais transparente ao COI.

Mas conquistar os mais de cem votos promete ser uma batalha intensa ao alemão. Membros do COI admitiram que há uma campanha para conseguir que, pela primeira em mais de cem anos da entidade, a presidência seja dada para um país fora da Europa. Desde sua criação, o COI teve oito presidentes e apenas um deles, Avery Brundage, veio de fora da Europa.

Para um membro chinês, que pediu para não ter seu nome revelado, as Olimpíadas de Londres serão fundamentais para o sucesso da candidatura de Bach. "Essa é uma olimpíada europeia", disse. "E um teste para Bach", confirmou.

Um forte concorrente seria o presidente da Confederação Olímpica de Porto Rico, amplamente apoiado pelos Estados Unidos e a pessoa que negociou a venda dos direitos de transmissão dos Jogos até 2020, garantindo ao COI uma renda inédita.

Outro nome é o de Ser Miang Ng, de Cingapura. Com o COI de olho no mercado asiático, o comando da entidade nas mãos de alguém próximo aos chineses é visto como um potencial um novo ímpeto ao movimento. Outro nome amplamente debatido é o de Nawa El Moutawakel, a primeira mulher árabe a conquistar uma medalha de ouro nos Jogos e hoje conhecida como "a dama de ferro", por liderar os trabalhos de preparação das diferentes sedes para realizar os Jogos.

Tudo pronto. "Estamos prontos, Londres está pronta". A declaração entusiasmada é de Sebastian Coe, presidente do Comitê Organizador dos Jogos de 2012 e que ontem, em um cenário de pompa e luxo, abriu oficialmente os trabalhos do COI, numa espécie de início privado das Olimpíadas. "Que os Jogos comecem", declarou o folclórico prefeito de Londres, Boris Johson, aos berros e diante de aplausos efusivos da cúpula do esporte mundial.

Londres se transformou na noite de ontem na primeira cidade a receber pela terceira vez o movimento olímpico, num evento na Opera Real de Londres.

Coe, ex-campeão olímpico, insistiu que não há dúvidas de que todos os eventos estarão lotados e que, além do esporte, o evento em Londres tem como meta ser também um "força para mudanças sociais". "Estamos levando o COI para o século XXI e tornando os Jogos em algo mais que um evento esportivo", disse.

Ontem, a rainha Elisabeth recebeu os membros do COI em seu palácio e também mandou seu recado, antes da festa. "Londres está fazendo história", disse. "Em nome do povo britânico, saúdo o mundo e espero que o jogos representem a esperança, num cenário conturbado."

Não foi por acaso que a monarca usou a palavra esperança para marcar o evento. Seu país vive a segunda recessão em três anos, o projeto de união da Europa pena para se recuperar e poucos podem prever o que ocorrerá com a economia mundial. Enquanto no palco a ordem era mostrar a grandeza do Reino Unido e do movimento olímpico, dezenas de cartolas sentados na Opera Real admitiam que vivem momentos de austeridade.

Em seu quinto ano de recessão e com 22% de desemprego, a Grécia de hoje não tem qualquer relação com aquela que, há oito anos, organizou os Jogos de Atenas e destinou ao evento US$ 15 bilhões. Na Itália, o primeiro-ministro Mario Monti cortou em 20% a contribuição do governo ao Comitê Olímpico Italiano e impediu que Roma concorresse para sediar os Jogos de 2020.

Essa não é a primeira vez que o esporte europeu é confrontado por uma severa crise econômica. Há 20 anos, o impacto foi sentido quando o bloco soviético entrou em colapso. Muitos daqueles países apareciam com frequência entre os maiores medalhistas. A maioria deles jamais voltou ao topo na classificação.

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