No Rio, Caddies tentam futuro no golfe

Estados Unidos, final da Copa do Mundo de 1994, o Brasil quebrava um tabu de 24 anos sem um título Mundial. Ao mesmo tempo, em Japeri, um dos municípios da região mais violenta do estado do Rio, a Baixada Fluminense, onze jovens davam início a uma brincadeira: jogar golfe, um esporte de elite no País, em um campo esburacado, com tacos empenados, gastos, e sem nenhuma infra-estrutura.Todos os pioneiros, além de morar em Japeri, trabalhavam como ?caddie? (carregador de tacos) nos elitizados clubes de golfe do Rio. Aos poucos, a viagem diária de 63 quilômetros para a capital foi sendo recompensada com a prática do esporte às segundas-feiras, quando os campos estão fechados para os associados. Os equipamentos usados eram os presentes que ganhavam dos golfistas: tacos gastos dos "bacanas", que iriam para o lixo. E assim surgiu a idéia: por que não praticar em casa?Nove anos depois, o que era brincadeira virou "coisa séria", o que era um campo esburacado está virando um campo oficial de 700 mil metros quadrados, o que era um sonho de onze jovens se transformou em uma realidade para cerca de 60 praticantes que nunca tinham visto uma partida de golfe e se divertiam jogando futebol em terrenos cheios de lama. E aos poucos, o golfe foi arregimentando e encantando os jovens do local.Uma idéia que demorou a "pegar" entre a comunidade, principalmente, porque todos eram "colocados" para correr sob pedaços de pau, tiros de espingarda e pedradas, pelo antigo dono do terreno, onde está sendo construído o Campo de Golfe Público Municipal com nove buracos, comprado pela prefeitura. Na sexta-feira, o local abrigou a 3ª edição do Torneio de Natal, reunindo caddies de vários clubes do Rio, com a participação de 16 moradores da cidade, vestidos à caráter, com camisa azul e bermuda creme.Do lado de fora do torneio acontecia outra disputa: quais seriam os caddies dos caddies? Os jovens que usam o campo durante a semana, mas que não trabalham como caddie, e por isso não podiam participar do torneio, estavam a postos para auxiliar aqueles que durante todo o ano servem nos requintados clubes de golfe do Rio.Jefferson Lopes da Silva, de 20 anos, é o mais antigo do grupo de aprendizes. Chegou ao local há quatro anos atraído pela curiosidade e pela "nova" oportunidade. Contente com a experiência lá estava ele no torneio carregando a bolsa de tacos de um jogador, ansiando por um dia, ao menos, ser um caddie verdadeiro. "O sonho de todos aqui é ser um grande jogador, mas caddie também já está bom", afirmou.Se Silva conseguiu ser caddie "por um dia", Vanderlei de Souza, de 16 anos, se contentou em apanhar as bolinhas espalhadas pelo "putting green" e o "driving range", áreas de treinamento. Há dois anos, ele freqüenta o local e o tempo gasto com as "peladas" do futebol passou a ser investido no golfe. "Já cheguei a repetir de ano na escola por causa do golfe. Adoro isso aqui e cheguei a matar aulas para vir treinar", afirmou Souza, que está na sexta série do Ensino Fundamental. "Minha mãe me proibiu de jogar, mas eu mentia dizendo que ia à casa de um amigo e vinha para o campo. Hoje ela se conformou. Não tem jeito."E para ser um bom caddie é necessário bom entrosamento com o jogador e tranqüilidade, ensinou Rodrigo de Souza Cardoso, de 17 anos. Afinal, são cerca de quatro horas acompanhando o "parceiro" durante a partida. "Eles sempre nos ensinam alguma coisa. Ficam conversando com a gente durante o jogo e é muito bom vê-los jogar", disse o jovem, que freqüenta o campo há três anos e meio. "Minha casa fica aqui ao lado e da janela via eles jogarem. Até que um dia resolvi pedir um taco e me deram. Daí não parei mais."A previsão é a de que o campo oficial esteja pronto no final de 2004. Em abril, os três primeiros buracos deverão ter suas obras concluídas para a realização de um grande torneio de golfe, reconhecido para Federação Estadual da modalidade. A nova construção é uma das esperanças de emprego para os jovens que finalmente poderiam ser tornar caddies "oficiais", atuando em sua terra-natal.

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