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Nocaute psicológico

A encrenca é maior do que Paulo Autuori imaginava. Derrotado pelo Vitória por 3 a 2, o São Paulo foi o mesmo time instável dos tempos de Ney Franco. Desestruturado emocionalmente, precisa de alguém que consiga devolver-lhe o equilíbrio, a base para a sustentação de um jogo verdadeiramente coletivo.

PAULO CALÇADE, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2013 | 02h05

Com a defesa escancarada, já são oito partidas sem vitória. No campo, os defeitos técnicos e táticos formam a parte visível do problema, a mais fácil de ser identificada. Na prática, representam o abismo psicológico em que o grupo se meteu.

Para voltar a crescer, Autuori terá que implantar rapidamente seu modelo tático e resolver os dramas de várias cabeças. A partir daí será possível definir com precisão quem pode e quem não pode mais jogar no São Paulo. Nos momentos ruins, de crise, ninguém presta mesmo.

O grupo não é excelente, é bom. A sequência de maus resultados inibe a criatividade e diminui a iniciativa. No Barradão, com a expulsão de Wellington na metade do segundo tempo, o treinador se mandou para o banco de reservas com a cara de quem já pensava no futuro. Não havia mais o que fazer na Bahia.

Nenhum time resolve seus problemas com três dias de conversa. O São Paulo vai dar mais trabalho para ser consertado do que Paulo Autuori imaginava, mesmo se vencer o Corinthians na quarta-feira e conquistar a Recopa Sul-americana. Será um alento, não o fim dos problemas.

Na prancheta do treinador, sob seu comando a equipe vai atuar no sistema 4-4-2, com o meio de campo desenhado em forma de diamante, conforme ele gosta de definir. Na prática, são três jogadores entre a defesa e o organizador do jogo ofensivo.

Nesse formato, existe vaga apenas para um meia. Para ter Jadson e Ganso juntos, um dos dois deverá ser adaptado a uma daquelas três vagas, ontem ocupadas por Wellington, Rodrigo Caio e Maicon.

Na prancheta tudo cabe. Difícil é fazer funcionar no campo. Seria injusto reposicionar Jadson, recuar justamente o meia que vem dando as melhores respostas em campo. A tarefa, então, sobraria para Ganso, uma das missões mais complicadas de Autuori no clube.

Se jogando adiantado, mais próximo da área, a atuação do meia merece reparos, o que dizer dele fazendo a transição, carregando a bola da defesa para o ataque?

Não se trata apenas de um encaixe tático. Seria simples demais. Um jogador inteligente e técnico como ele não deveria ter problemas em campo. A dificuldade é a falta de intensidade no seu futebol. É isso o que Autuori tentará mudar, Ganso precisa aprender a jogar com e sem a bola.

É a cultura do futebol brasileiro. O jogador técnico e habilidoso é criado como se bastasse intervir em momentos específicos, pontuais. O erro vem das divisões de base. Depois, no time profissional, tudo é mais difícil. Não é à toa que a maioria retorna do futebol europeu enaltecendo o aprendizado tático.

A partir de agora, a recuperação emocional é o ponto de partida para todas as mudanças necessárias no time. Não existe esporte sem o domínio e o controle da psicologia. É assim que funciona até no MMA. Basta lembrar o nocaute sofrido por Anderson Silva.

Havia sentido naquela movimentação sobre o octógono no melhor estilo Muhammad Ali? A guarda baixa e o desprezo pelo adversário evidenciaram uma estratégia. O objetivo era entrar na cabeça de Chris Weidman, desestruturá-lo emocionalmente e definir o combate.

Você deve estar se perguntando o que o MMA tem a ver com o futebol. A base do resultado é a mesma, reúne técnica, tática, estratégia, condicionamento físico e preparação mental. A aplicação é diferente.

O exemplo da luta serve para ilustrar a importância da gestão emocional no rendimento de qualquer esporte. Silva se deu mal porque Weidman estava habilitado até para suportar sua atuação teatral. Confiança é fundamental, principalmente nos nocautes.

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