Noitada expõe decadência do boxe brasileiro

O dividido boxe brasileiro presenciou terça-feira um dos episódios mais insólitos e lamentáveis de sua história. No mesmo local, no Complexo Esportivo Baby Barioni, zona oeste de São Paulo, há 200 metros de distância um ringue do outro, foram disputadas duas das principais competições amadoras do País. De um lado, o Campeonato Paulista, organizado pela federação do dirigente Newton Campos; do outro, o Brasileiro, de Luiz Cláudio Boselli, presidente da confederação nacional. Ambos se odeiam, não se cumprimentaram, nem tentaram; marcaram suas lutas para o mesmo local por vaidade, por uma queda de braço que mantêm a anos. E os prejudicados foram os boxeadores. Dois deles lutaram duas vezes na mesma noite. ?Estou cansado, claro. Minha preparação foi feita para um único combate. Achei que não ia agüentar?, disse o peso galo Jefferson Loiola. Ele se qualificou para a semifinal do Campeonato Brasileiro (que se encerra no sábado) ao passar por José Lira, de Sergipe. Minutos depois, conquistou o título estadual contra Aldimar Silva. Jefferson justifica o sacrifício dizendo que não podia abrir mão de qualquer uma das lutas. ?Pensei na minha carreira.? Sua intenção é voltar para a seleção permanente mantida pela Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe), da qual teve de sair no fim de 2002 por causa de uma operação no nariz. ?Se eu não fosse para o Brasileiro, ia queimar meu filme com o Boselli?, explica. ?E a final do Paulista é que eu não podia perder mesmo. Cheguei na decisão e não vou lutar!?, afirmou. ?Ainda bem que deu tudo certo?, declarou no fim da noite, com o rosto marcado pelos golpes. No fogo cruzado entre os dirigentes, o meio-pesado Washington Luís Silva por pouco não jogou tudo para o alto. Minutos antes de seu primeiro desafio, pelas quartas-de-final do Nacional, contra o brasiliense Marcelo Cruz, não sabia se poderia lutar no evento da Federação Paulista de Boxe (FPB). O horário dos combates por pouco não coincidiu e, além disso, estava com medo de ser punido pela CBBoxe. ?Está correndo um boato que, se a gente for para lá, vão cortar nossa ajuda de custo (recebe R$ 1.000 mensais por integrar a seleção permanente).? Acabou arriscando. Pelo Brasileiro, após quatro rounds, Washington ganhou por pontos. Mal foi anunciado o resultado, pulou as cordas e saiu correndo para a quadra ao lado, onde estava sendo disputado o Paulista. Chegou, entrou no ringue e venceu Jackson Júnior, de novo por pontos. Esgotado, contou ter sido ?obrigado? a mudar seu estilo. ?Eu sou do tipo que vai para cima, tentando derrubar logo, mas, como hoje ia me cansar muito, preferi me poupar, deixar o combate correr.? Dois pugilistas, Fabiano Astorino e Rafael Lima, se recusaram a ir ao evento da FPB. ?Não tenho condição de lutar duas vezes por dia?, justificou Astorino. Descaso ? Os boxeadores se ?matando? e os presidentes das entidades trocando farpas. ?Manda dizer para ele (Boselli) que aqui tem muito mais público que lá?, disse Newton Campos. Nem por uma questão diplomática, Boselli aceitou ir falar com Newton. ?Ele é um ditador, não dá para falar com ele. Não vou lá de jeito nenhum.? Ao saber que Jefferson Loiola havia ganho seus dois confrontos, em vez de ficar preocupado com a saúde do atleta, declarou. ?Esses garotos são impressionantes.? Mas não cabe ao dirigente proibir esse tipo de coisa? ?Não, cada um faz o que quer da sua vida. Se ele quiser lutar a noite inteira, é problema dele.? A briga entre os cartolas teve início no Brasileiro de 2000, em Mauá, e culminou com a desfiliação da FPB este ano. Boselli acusa Newton de ser prepotente e de não aceitar as ordens da CBBoxe. Este, por sua vez, considera o desafeto mentiroso e desonesto e diz que ele utiliza a confederação e o boxe para vender materiais esportivos da marca de sua propriedade, a América.

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