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Noite dos milagres

O Palmeiras necessita de graça média e o São Paulo precisa de dádiva grande na Copa do Brasil

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2015 | 03h00

Lucio Dalla, compositor italiano morto dois anos atrás e conhecido por aqui pelo sucesso Caruso, escreveu nos anos 80 a canção La sera dei miracoli (“A noite dos milagres”). Música e letra muito bonitas, que poderiam inspirar Palmeiras e São Paulo nos desafios desta quarta-feira nos duelos de volta pela semifinal da Copa do Brasil. Nenhum se encontra em situação confortável e ambos precisam de prodígios – de médio e de grande porte –, para avançar para a decisão.

A tarefa palestrina, ao menos na teoria, é menos complicada do que a de tricolores. A rapaziada de Marcelo Oliveira se garante com vitória simples – 1 a 0 magrinho sobre o Flu basta para manter vivo sonho do terceiro título, a juntar-se àqueles de 1998 e 2012, sempre sob comando de Felipão.

No papel, não parece nada sobrenatural; o Palmeiras tem força suficiente para superar um adversário instável que o visita num Allianz Parque lotado, rotina em um ano de funcionamento e um milhão de torcedores no total. Marcelo poderá contar com gente que ficou fora dos últimos jogos – o principal deles Robinho, livre de contusão.

O time estará perto de força máxima e tentará valer-se do bom desempenho como mandante. Na atual temporada, foram 61 gols a favor nos jogos em casa, contra 28 sofridos. Diferença positiva que passa confiança diante da previsão de sufoco na missão de hoje.

Mas os números também embutem preocupação. Nas últimas 20 apresentações, Brasileiro e Copa somados, o ataque marcou 36 vezes e a bola entrou no gol verde 34. O retrospecto recente faz berrar o desequilíbrio em que se enfiou e mostra por que despencou na classificação na Série A, com risco de não cavar nem a quarta colocação.

O sistema defensivo transformou-se no calcanhar de Aquiles do time, e nesse aspecto se instala o medo. A equação para o técnico resolver está na necessidade de gols (ou, vá lá, unzinho só) e na proibição de sofrê-los. Brecha psicológica e tática que Eduardo Baptista pretende explorar e que pode abreviar o caminho do Fluminense.

O histórico dos dois lados leva à suposição, nada fantasiosa, de que 0 a 0 não vingará. Seja pelo poder dos ataques, seja pelas deficiências de defesas. Quem vai se dar melhor, só com bola de cristal para saber. (Se não inventaram já algum aplicativo para celular que facilite o trabalho de videntes.)

Não precisa convocar adivinho para prever gols também na Vila Belmiro, no clássico paulista. O Santos desandou a mandar bolas para as redes, desde a chegada de Dorival Júnior, e nas últimas 20 partidas passou em branco quatro vezes, a mais recente no empate por 0 a 0 com o Figueirense, no sábado, em Florianópolis. Para o São Paulo, em amostragem idêntica, o número de jogos sem gols sobe para cinco.

A serenidade santista vem da força ofensiva – além dos 3 a 1 conseguidos na semana passada no Morumbi, sempre é bom lembrar. Dorival não se vê obrigado a mexer no esquema que tem dado certo, tampouco em jogadores como Ricardo Oliveira, Gabriel, Marquinhos Gabriel, Lucas Lima. Enfim, em gente que cria, chuta, inferniza defesas rivais. Um gol que seja atormentará mais a turma de Doriva, que vai a campo com a sobrecarga da enorme desvantagem.

Mas, como se busca uma “noite dos milagres”, não vale jogar a toalha de antemão. A lógica e o bom senso cravam avanço do Santos, neste momento favorito também ao título. Os são-paulinos contam com o desempenho perfeito, algo que não mostraram em 2015. Eis a oportunidade de “fazer história”, como os boleiros tanto gostam de lembrar nas entrevistas. Hora de prova na prática. O futebol tem umas maluquices... vai que cola.

Força dos clubes. CBF e várias federações falavam grosso, no começo da semana, e preparavam um pesado “não!” pra Liga Sul-Minas-Rio. Na reunião de ontem, houve aprovaram unânime, “com ressalvas”. Se os clubes deixarem de ser tontos, ainda mandarão no futebol. Amém.

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