Plantation Field Equestrian Events/Divulgação
Plantation Field Equestrian Events/Divulgação

Nome de propriedade com conotação racista ameaça o futuro de competição equestre nos EUA

Local chamado de 'Plantation Field' faz referência ao período da escravidão americana e provoca debate sobre mudança

Gillian R. Brassil, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2020 | 16h00

Por duas décadas, o esporte olímpico equestre de concurso completo de equitação organizou competições de prestígio em uma propriedade da Pensilvânia com uma paisagem perfeita para cavalos e cavaleiros demonstrarem força, resistência e graça ao saltar sobre uma variedade de obstáculos sólidos e naturais. Este ano pode ser seu último ali. Não há nenhum problema com a instalação em si. Há um problema com seu nome: Plantation Field.

Em vez de mudar seu nome, como alguns praticantes do esporte reivindicaram em um momento de maior consciência a respeito do racismo sistêmico, o proprietário do imóvel decidiu cancelar a locação para eventos futuros, lançando dúvidas quanto ao futuro das competições de concurso completo de equitação no local, incluindo a renomada Plantation Field International Horse Trials.

A Plantation Field Equestrian Events, organização sem fins lucrativos que realiza provas de concurso completo de equitação e outras competições no terreno, disse que o nome não tinha ligação com a escravidão.

A propriedade em Unionville, Pensilvânia - uma comunidade historicamente quacre e abolicionista que fazia parte da Underground Railroad - é de propriedade de Cuyler Walker, um ex-supervisor de East Marlborough, Pensilvânia, que agora é presidente da comissão de planejamento da área.

"A Pensilvânia colonial considerava propriedades com menos de 100 acres como fazenda e propriedades com mais de 100 acres como 'plantation' (plantação)", escreveu Denis Glaccum, o presidente da organização sem fins lucrativos, em um post no Facebook na quarta-feira. "Não há referência à raça nesta definição."

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A Pensilvânia colonial considerava propriedades com menos de 100 acres como fazenda e propriedades com mais de 100 acres como 'plantation'. Não há referência à raça nesta definição
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Denis Glaccum, Presidente da organização Plantation Field Equestrian Events

No entanto, aqueles que pressionaram pela mudança disseram que, seja qual for a intenção original, a palavra agora tem associações negativas com a escravidão.

O esforço para a mudança foi iniciado em junho pelo Eventing Nation, um site de notícias de esportes equestres, quando seus editores entraram em contato com a Federação Equestre dos Estados Unidos e uma afiliada, a Associação de Eventos Equestres, a respeito da mudança de nome. As organizações disseram que nenhuma delas tem o poder de fazer um evento mudar de nome.

Em agosto, o Eventing Nation notificou a organização sem fins lucrativos de que não usaria a palavra "plantation" em seu site de notícias na cobertura das competições. Os organizadores do Plantation Field responderam revogando as credenciais de mídia dos repórteres do Eventing Nation, de acordo com sua editora-chefe, Leslie Wylie.

As provas da Plantation Field International Horse Trials, que consiste em adestramento, salto e cross-country com atletas olímpicos de todo o mundo e cavaleiros locais, foram realizadas de quinta a domingo. Mas com o aluguel para as competições equestres cancelado, não está claro se mais alguma competição de concurso completo de equitação será realizada no local.

Leslie disse que o problema era o legado mais amplo do termo "plantation", não a história específica dos locais onde aconteciam as competições em Unionville. "Em nossas comunicações diretas muito limitadas com a Plantation Field, nunca sugerimos que alguém associado ao evento tivesse motivações racistas", disse Leslie.

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Em nossas comunicações diretas muito limitadas com a Plantation Field, nunca sugerimos que alguém associado ao evento tivesse motivações racistas
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Leslie Wylie, Editora-chefe do Eventing Nation

O pedido coincide com a retirada de símbolos, estátuas e nomes de prédios e ruas consideradas racistas nos Estados Unidos. As "plantations" também são alvos porque as atividades realizadas nas propriedades, como o plantio de algodão e de fumo, eram sustentadas pelo trabalho escravo.

O estado de Rhode Island, antes conhecido como Estado de Rhode Island e Providence Plantations, removeu uma referência às "plantations" na última metade de seu nome. Há uma pressão para que os casais evitem realizar casamentos nas "plantations", um destino popular para recepções no sul do país.

Depois de cancelar a locação para as competições equestres, Culyer, o dono da propriedade, saiu do conselho da organização sem fins lucrativos. Ele não quis comentar a respeito do tema. Glaccum e outros integrantes da Plantation Field Equestrian Events disseram que não se pronunciariam antes do fim das provas do fim de semana e não responderam às mensagens quando contatados na segunda-feira.

Ambos os CEOs da Associação de Eventos Equestres e da Federação Equestre disseram que analisariam os nomes de outros locais onde as competições são realizadas para verificar se há referências ofensivas antes de decidir a respeito de qualquer ação futura em potencial.

Após o anúncio de que eventos futuros no local foram cancelados, incluindo competições nos próximos anos, a raiva explodiu nas redes sociais do mundo dos esportes equestres, incluindo o pedido para boicotar o Eventing Nation por seu papel no cancelamento do aluguel da propriedade para a famosa competição com cavalos. Mas outros cavaleiros e fãs criticaram a decisão de Walker de cancelar a locação em vez de mudar o nome, dizendo que qualquer que seja a origem, a conotação dolorosa da palavra significa que ela deve mudar.

Para alguns cavaleiros negros, a recusa da propriedade em considerar uma mudança de nome é outro exemplo de pessoas, em um esporte historicamente branco, que estão fora de sintonia com a mudança na sociedade. De acordo com dados da Federação Equestre dos Estados Unidos, a organização que rege os esportes hípicos americanos, quase 90% de seus 185 mil associados se identificam como brancos.

"O fato de que isso foi recebido com censura, ridicularização e ira descabida mostra que eles não estão prontos para mudar", disse Abriana Johnson, que em 2019 iniciou o Young Black Equestrians, um podcast para discutir questões de representatividade no esporte. "E a mudança está no horizonte."/TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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